A semana fecha com um contraste que resume o momento. Lá fora, CPI e PPI vieram dentro do esperado, o mercado elevou para 65,2% a chance de o Fed manter juros em setembro e para 50,1% a mesma manutenção em outubro, empurrando qualquer aperto para dezembro. Wall Street comemorou com o S&P 500 batendo recorde aos 7.798,99 pontos e o Nasdaq subindo 0,81%.
Aqui, o Ibovespa emendou a oitava queda seguida, pior sequência em três anos, e o dólar foi outra vez trabalhar acima dos R$ 5,20, o pior desempenho do mês entre 33 moedas globais. O alívio lá fora existiu. Só não atravessou o Atlântico para mudar nossa realidade.
A ata do Copom chegou, mas não resolveu o principal
A ata do Copom, aguardada como uma das referências que dariam o tom da semana, veio na terça-feira e cumpriu só parte do prometido. O comitê reconheceu que os efeitos da política monetária restritiva sobre a atividade vêm se acumulando e ajudando na desinflação, e trocou o discurso sobre o mercado de trabalho, que passou de sinais de resiliência para francamente aquecido. Mas evitou qualquer sinalização mais dura sobre setembro, deixando a decisão condicionada aos próximos dados.
O problema é que a ata resolveu a dúvida sobre a Selic e não resolveu nada do resto. Enquanto o Copom debatia gradualismo, o JPMorgan rebaixava o Brasil e a eleição tomava o centro do noticiário, provando que o texto mais esperado da semana já nasceu pequeno demais para o tamanho dos problemas que vieram depois dele.
O Fiscal não convenceu ninguém
O Congresso aprovou o PLP dos Combustíveis como quem entrega remédio genérico para dor crônica. Abre cerca de R$ 10 bilhões de espaço no Orçamento de 2027, mas ao mesmo tempo amplia benefícios e antecipa despesas. A conta que o mercado cobra é bem mais robusta, estimativas apontam para um ajuste primário entre R$ 300 bilhões e R$ 350 bilhões. Enquanto isso não aparece, o país segue pagando prêmio na curva longa.
O DI para janeiro de 2033 fechou em 14,640%, ante 14,554% na véspera, subindo mesmo com o petróleo em queda e os Treasuries recuando lá fora. Juro longo subindo sozinho, sem gatilho externo, é o mercado embutindo mais prêmio de risco fiscal e eleitoral na curva brasileira.
Esse prêmio puxa o dólar para cima, encarece o custo de carregar ativos em real e reduz o apetite do estrangeiro. Na bolsa, o efeito é igualmente ruim porque os juros futuros mais altos competem diretamente com a renda variável e reforçam a percepção de que o crédito caro continuará segurando a atividade.
Prova de que o problema aqui é doméstico, não importado, e mais um dos motivos por trás dos movimentos da semana.
A eleição precifica o mercado
Até pouco tempo atrás, o mercado tratava outubro como um horizonte distante. Essa fase acabou. O rebaixamento do Brasil pelo JPMorgan fez o que meses de sinalização política não conseguiram, colocou a disputa presidencial dentro da planilha de risco. A saída de estrangeiros da B3 já soma quase R$ 12 bilhões no mês, com R$ 4,7 bilhões só no pregão do rebaixamento.
Há quem chame de movimento técnico, ligado à concentração de posições em fundos internacionais próxima de 60%, maior nível em vinte anos. Há quem chame de risco eleitoral. As duas leituras convivem bem, porque o resultado prático é o mesmo, capital saindo rapidamente e com forte impacto nos mercados.
Semana bem difícil para os investidores, que precisam a partir de agora colocar essas novas camadas de risco na equação.