Rafa AnthonyTrader de dólar há 10 anos, professor e especialista em Market Profile, uma poderosa ferramenta de análise do mercado

Brasil corta Selic para 14% e payroll mostra fraqueza do mercado americano

Publicado em 07/08/2026 às 15:34.

A semana começou com todo mundo de olho no Oriente Médio e terminou com o susto vindo de um lugar completamente diferente. Depois de dias tentando adivinhar se o Estreito de Ormuz reabriria ou não, o investidor descobriu que o verdadeiro vilão da sexta-feira estava escondido num relatório de emprego americano que ninguém achava capaz de pregar sustos.

A trégua que durou dois dias

Na terça e na quarta, o petróleo derreteu quase 10% em dois pregões, embalado pela promessa de que Irã e Omã, que atuava como mediador dos EUA, fechariam um acordo para reabrir Ormuz. O alívio bastou para o Copom cortar a Selic para 14% sem grandes turbulências e para o Ibovespa flertar com os cento e oitenta mil pontos. Bastou também para Wall Street bater recordes, como se a guerra tivesse sido resolvida por WhatsApp.

Só que a trégua durou o tempo de um suspiro. Na quinta, os houthis voltaram a atacar petroleiros sauditas, o Irã chamou a diplomacia americana de teatro e o Brent recuperou tudo o que tinha perdido, fechando a semana de volta acima de US$82 dólares. O mercado, que tinha comprado a paz antes da assinatura, precisou devolver o troco.

O Copom fez o dever de casa e ninguém prestou atenção

No Brasil, em meio a esse vaivém, o Banco Central cumpriu o script esperado, cortou 0,25% e entregou um comunicado enxuto que não prometeu nada para setembro. Um exercício de prudência que, em qualquer outra semana, seria a manchete. Mas com o petróleo dando pirueta, a decisão brasileira virou nota de rodapé com pouca força para o mercado.

O emprego que ninguém viu chegar

E chegou a sexta-feira, com o mercado blindado contra qualquer notícia que não envolvesse barris e ogivas. O consenso apostava em algo perto de 85 mil vagas criadas em julho nos Estados Unidos, número capaz de reforçar a tese de juro alto por mais tempo. Veio o oposto. Os Estados Unidos fecharam vinte e três mil postos de trabalho, a primeira contração em meses, e ainda levaram uma revisão de mais de cem mil vagas para baixo em maio e junho. A taxa de desemprego até caiu, para 4,5%, mas pela pior razão possível, com a participação da força de trabalho no menor nível em cinco anos, sinal de gente desistindo de procurar emprego, não de gente sendo contratada.

Foi o tipo de dado que o próprio mercado tinha dito, dias antes, que seria necessário para tirar o Fed do piloto automático inflacionário. Pois veio, e trouxe junto o consenso derretendo as apostas de alta de juro em setembro, os Treasuries caindo forte e o dólar perdendo força mundo afora.

A Petrobras que ninguém comentou

No meio desse turbilhão, a Petrobras entregou um dos melhores trimestres da história, com lucro recorde puxado justamente pelo petróleo mais caro que tanto assustou o resto da semana. Prova de que, em mercado financeiro, o que é problema para uns é bônus para outros, dependendo de qual lado do barril você está.

Fecha a semana com o investidor tendo aprendido, mais uma vez, que a variável que ele estava ignorando é sempre a que pesa mais nas tomadas de decisões.

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