A semana começou com o petróleo perdendo protagonismo. Na segunda-feira, o mundo parecia ter decidido que o Oriente Médio já não mexia tanto com os preços. Bastaram, porém, os ataques a navios próximos ao Estreito de Ormuz para que o discurso mudasse. Na quarta e na quinta-feira, novos bombardeios americanos contra o Irã levaram o Brent a encostar nos 80 dólares, reacendendo os temores com a inflação. Ontem, entretanto, o mercado resolveu dar mais um voto de confiança à diplomacia.
A diplomacia do Powerpoint
Não houve trégua assinada, não houve comunicado conjunto, não houve nada além de Trump dizendo que o Irã "quer muito" um acordo e relatos de que Catar e Paquistão tentam remediar a situação. Foi o suficiente. O Brent recuou mais de 2%, as Treasuries se acalmaram e o dólar devolveu parte do prêmio acumulado. O investidor, cansado de reagir a cada explosão em Bandar Abbas, escolheu acreditar que ninguém quer pagar a conta de uma guerra prolongada. Pode até estar certo. Mas vale lembrar que essa mesma aposta já foi feita e desfeita três vezes só esta semana.
Ormuz parou, mas o mercado seguiu movimentando
O detalhe mais curioso é que, enquanto os preços caíam, o tráfego real de petroleiros pelo estreito praticamente zerava, segundo Reuters e Bloomberg. Ou seja, a percepção de risco melhorou exatamente no momento em que o risco operacional ficava mais concreto. Isso diz menos sobre o Irã e mais sobre como o mercado funciona, sempre um passo à frente da realidade, às vezes correndo na direção errada.
E no Brasil, Brasília joga pelo empate
Por aqui, o governo aprendeu a lição rápido. Depois de sinalizar o fim do subsídio à gasolina, Dario Durigan, o atual Ministro da Fazenda, recuou e manteve tudo como estava, esperando o petróleo se acalmar de verdade antes de mexer em preço de combustível em ano eleitoral.
A Camex (Câmara de Comércio Exterior) prorrogou o imposto de exportação sobre o petróleo por mais 60 dias. Ninguém em Brasília quer ser o responsável por reajuste de bomba enquanto bombas de verdade caem do outro lado do mundo.
O IPCA foi a cereja da semana
Hoje, às 9h, saiu a inflação de junho e o mercado pode guardar aquela cautela toda no bolso. O IPCA subiu 0,16%, quase metade do 0,31% esperado, e em 12 meses desacelerou para 4,64%, também abaixo da previsão de 4,80%. A alimentação surpreendeu para o lado bom, com recuo de 0,24% depois da alta de maio, puxado por café, frutas e carnes mais baratos.
Quem segurou o índice para cima foi a habitação, com a energia elétrica ainda pesando, mesmo perdendo força frente ao mês anterior. Um IPCA bem mais fraco que o esperado, logo na semana em que o petróleo lembrou o mercado de que inflação importada ainda é risco real, tende a fortalecer ainda mais a aposta de corte de 0,25 ponto na Selic em agosto. O Copom ganhou um argumento e tanto para não hesitar.
O Real como agente duplo
Enquanto tudo isso acontecia, o real seguiu fazendo o que sabe fazer melhor, que é surfar qualquer cenário. Com petróleo caro, lucra com a balança comercial. Com petróleo caindo, lucra com o alívio geral. É a moeda que ganha nos dois lados da aposta, forçando o recuo do dólar de mais de 10 centavos, de volta aos R$ 5,10.
A semana termina como começou, uma semana difícil, com o mercado escolhendo acreditar na versão mais confortável dos fatos. Só que dessa vez, no meio do caminho, teve gente desconfortável quando o petróleo bateu 80 dólares e as bolsas caíram três dias seguidos, a nossa sorte é que a memória do mercado é curta.