Rafa AnthonyTrader de dólar há 10 anos, professor e especialista em Market Profile, uma poderosa ferramenta de análise do mercado

Fed decide os juros, mas Big Techs ditam o ritmo do mercado

Publicado em 31/07/2026 às 19:29.

Depois de uma semana inteira em que o petróleo decidiu imitar montanha russa, o mercado chegou à sexta feira com uma lição incômoda.Guerra no Oriente Médio, por mais grave que pareça no noticiário, pode virar estatística quando prolongada demais. O Petróleo Brent subiu, caiu, disparou de novo e agora corrige, e ninguém mais se assusta. O investidor aprendeu a conviver com o barulho de fundo, ainda que o risco de um novo susto continue rondando o Estreito de Ormuz.

O verdadeiro protagonista da semana não usou uniforme militar. Usou. O subíndice de tecnologia do S&P 500 subiu 5%, puxado por uma Microsoft que fez história ao ganhar quase quinhentos bilhões de dólares em valor de mercado em um único pregão. A empresa provou que dá para acelerar investimento em inteligência artificial sem parecer estar queimando dinheiro para provar um ponto.

A Meta pagou o preço por prometer demais

Enquanto isso, o lucro da Meta decepcionou e ainda elevou a projeção de gastos para o ano que vem, o que é basicamente dizer ao mercado que a conta vai continuar subindo antes de qualquer sinal de retorno. A ação caiu quase 8%. A lição de casa da semana ficou clara. Investidor perdoa gasto alto com inteligência artificial, mas só quando vem acompanhado de resultado que sustente a narrativa. Prometer o futuro sem entregar o presente já não convence mais ninguém.

Apple e Amazon fecharam a semana em direções opostas depois do fechamento. A Amazon surpreendeu com a nuvem crescendo forte e anunciou duzentos bilhões de dólares em investimento para o ano que vem, disparando no after hours. A Apple, apesar de vender mais iPhone do que o esperado, decepcionou na projeção seguinte, e o mercado reagiu como sempre reage quando o presente é bom mas o futuro parece de segunda linha.

O Fed falou duas línguas ao mesmo tempo

Do lado da política monetária, Kevin Warsh conseguiu o impressionante feito de agradar hawks e doves na mesma entrevista, o que normalmente é sinal de que ninguém saiu plenamente satisfeito. O placar mais dividido desde 2016 sugeria aperto, enquanto o discurso indicava paciência, e o mercado ficou dividido entre as duas leituras, como quem tenta decidir o cardápio olhando para o garçom em vez do menu.

No fim, prevaleceu a leitura mais branda. O mercado deu mais peso ao discurso do presidente do que aos votos divergentes, e a probabilidade de alta dos juros em setembro recuou de mais de 80% para 57%.

A inflação deu trégua dos dois lados do Equador

No Brasil, a semana trouxe a combinação que os economistas sonham antes da reunião de Copom. IPCA-15 quase zerado, IGP-M em deflação mais forte que o esperado, e o consenso caminhando para corte de juro na quarta que vem quase sem dissenso. Só quatro entre sessenta casas ainda apostam em manutenção. Depois de meses de política monetária dura, os sinais de desinflação finalmente aparecem, e o mercado já começa a discutir setembro como se agosto já estivesse resolvido.

O dólar sentiu o combo de sinais dovish nos Estados Unidos e no Japão, onde rumores de intervenção cambial derrubaram a moeda americana contra o iene. O real aproveitou a onda e fechou a semana em queda firme, mesmo com o petróleo ainda dando trabalho.

No fim, quem decidiu o rumo do mercado não foi o Oriente Médio, foi o Fed e o balanço trimestral de quatro empresas americanas.

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