O payroll fraco dos Estados Unidos, aquele relatório mensal que mostra quantos empregos o país criou ou perdeu, animou quem já queria decretar a desaceleração do Fed em setembro. Mas essa leitura otimista ignora um detalhe incômodo. Na cabeça do Fed a inflação tem um peso maior que o emprego. E essa semana chega justamente para testar se o otimismo de sexta-feira tinha lastro ou durou o tempo de um fim de semana.
O CPI de quarta-feira, o principal indicador de inflação ao consumidor nos Estados Unidos, é o primeiro obstáculo real. Se ele vier acima do esperado, a aposta em cortes de juros pelo Fed, chamada no mercado de aposta dovish, perde força rápido. O oposto disso, quando o mercado aposta em juros mais altos, é chamado de hawkish. Essa dualidade domina o humor de Wall
Street nos próximos dias.
O Fomc, comitê do Fed que decide os juros, segue dividido internamente, e essa divisão deve aparecer com mais clareza em Jackson Hole, um encontro anual de banqueiros centrais e economistas que acontece todo mês de agosto nos Estados Unidos e costuma sinalizar os próximos passos da política monetária americana. Cinco anos de inflação alta desgastam até o dirigente mais paciente, e já há um grupo relevante dentro do Fed disposto a admitir que esperar a inflação ceder sozinha ficou caro demais.
A Importância do IPCA e da Ata do Copom
No Brasil, o cenário segue parecido, mas com sotaque próprio. O IPCA de julho, o índice oficial de inflação do país, deve mostrar forte desaceleração, puxada pela queda de preços de alimentos e vestuário. Mas os serviços, categoria que inclui coisas como salão de beleza e manutenção doméstica, continuam acelerando, teimosos como sempre.
Esse contraste é o que interessa ao Copom, o comitê que define a Selic, nossa taxa básica de juros. Por isso a ata da última reunião, que será divulgada nesta terça, pesa mais que o próprio corte de 0,25 ponto percentual anunciado na semana passada. O comunicado não deu pistas sobre os próximos passos, então a ata vira o verdadeiro termômetro.
O mercado vai caçar sinais sobre um novo corte em setembro e tentar entender por que o Banco Central passou a classificar o mercado de trabalho como aquecido, o que normalmente é visto como pressão futura sobre os preços.
A Eleição Chegou Sem Pedir Licença
A partir de agora a política começa a brigar por espaço com a economia. Lula tenta blindar a agenda em Brasília antes de intensificar a campanha nos estados, enquanto a discussão sobre soberania nacional ganha peso em meio à tensão com os Estados Unidos. O ajuste fiscal, tema que trata do equilíbrio entre gastos e receitas do governo, segue esperando um convite que ninguém vai fazer antes da eleição.
Por Fim...
A semana concentra quatro decisões em menos de setenta e duas horas. Nos Estados Unidos saem o CPI, e o PPI, que mede a inflação na ponta da produção e costuma antecipar os movimentos que depois aparecem no CPI.
No Brasil saem o IPCA, índice oficial de inflação usado pelo Banco Central para guiar a Selic, e a ata do Copom, documento que detalha os motivos por trás da última decisão de juros. É informação suficiente para o mercado revisar de uma vez só suas apostas sobre os juros dos dois países.
O mercado adora antecipar o futuro. Essa semana mostra se ele antecipou o dado certo, ou só o dado que queria ver.