Rafa AnthonyTrader de dólar há 10 anos, professor e especialista em Market Profile, uma poderosa ferramenta de análise do mercado

IPCA-15 desafia ata do Copom e a aposta na Selic a 13,25% no fim do ano

Publicado em 25/09/2026 às 17:48.

O mercado passou a semana inteira de olho no petróleo, torcendo para que a diplomacia entre Estados Unidos e Irã desse um respiro antes do fim de semana. 

Conseguiu, mas só em parte. Só que na mesma manhã em que o Brent recuava dos US$ 106 para perto de US$ 98, batendo em retirada com o anúncio de negociações em Nova York, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística entregou um IPCA-15 de 0,70% em setembro, quase o dobro da mediana de 0,53% esperada pelos analistas. 

Enquanto o petróleo finalmente dava uma trégua, a inflação resolveu que também tinha direito a protagonismo.

O resultado foi o maior para um mês de setembro em cinco anos, e levou o acumulado em doze meses a 4,47%, a um triz do teto da meta de 4,5%. Alimentação e energia elétrica, esta última turbinada pelo fim do bônus de Itaipu, fizeram o trabalho pesado. 

O efeito colateral é imediato, o discurso de que o Banco Central tem espaço tranquilo para seguir cortando a Selic perde um pouco do brilho justamente na semana em que saiu a ata do Copom sinalizando isso.

A bolsa que só é feliz com o mundo em chamas

Curioso é que, com o petróleo recuando lá fora, a lógica mandaria a Petrobras cair, e foi exatamente o que aconteceu, com PETR3 e PETR4 ampliando perdas acima de 2%. Ou seja, nem o alívio geopolítico ajudou direito, porque assim que a commodity relaxou, quem se machucou foi justamente a queridinha do índice.

A verdade é que o investidor brasileiro está tentando fazer duas contas ao mesmo tempo com uma calculadora só. 

De um lado, o risco de guerra no Oriente Médio, que segue pautando o humor global e mantendo os juros dos Treasuries em máximas de duas décadas. 

Do outro, uma eleição a poucos dias do primeiro turno, com o Datafolha mostrando Lula numericamente à frente mas ainda empatado tecnicamente com Flávio Bolsonaro no segundo turno, e o episódio Vorcaro ganhando novas repercussões diariamente.

A inflação escolheu a pior semana para aparecer

Na terça, a ata do Copom, o comitê do Banco Central que define a Selic, reforçou a leitura de atividade em desaceleração, dedicou pela primeira vez um parágrafo ao crédito bancário e não sinalizou que 13,75% fosse o ponto final do ciclo. O mercado leu como recado dovish e revisou a Selic no fim do ano de 13,50% para 13,25%. 

Na quinta, o Relatório de Política Monetária reforçou a narrativa, com Galípolo detalhando planos para conter a oferta predatória de crédito.

Não é exagero dizer que o IPCA-15 pegou o mercado de surpresa. A narrativa dominante até ontem era de que o choque de energia vinha de fora, via petróleo e câmbio, e que a inflação doméstica estava relativamente sob controle. 

Hoje ficou claro que alimentos como tomate e cebola também resolveram entrar na conta, e que o fim do bônus de Itaipu foi um soco na conta de luz. Com o índice quase encostando no teto da meta, qualquer discurso mais dovish do Copom em novembro passa a soar duvidoso.

O irônico é que essa combinação, petróleo recuando e inflação subindo, é exatamente o tipo de cenário que não encaixa em nenhuma das duas teses que o mercado vinha defendendo com tanta convicção nos últimos dias.

Semana que vem será a última antes das eleições, e o mercado pode cobrar prêmio por cada nova incerteza que aparecer no caminho. Esse prêmio se traduz em volatilidade.

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