Rafa AnthonyTrader de dólar há 10 anos, professor e especialista em Market Profile, uma poderosa ferramenta de análise do mercado

Lula vence as eleições e força o mercado a corrigir a rota

Publicado em 26/10/2026 às 08:59.Atualizado em 26/10/2026 às 16:51.

Quem acompanha o mercado financeiro sabe que ele raramente admite um erro. Prefere chamar de reprecificação. É exatamente isso que deve acontecer nesta segunda-feira, depois que Lula venceu o segundo turno com 51,76% dos votos contra 48,24% de Flávio Bolsonaro, em um resultado que os preços simplesmente não tinham considerado.

A queda das ações e a alta do dólar e dos juros são o capítulo previsível. O capítulo interessante começa depois, quando o investidor para de olhar para a urna e passa a olhar para Brasília.

Um segundo turno diferente do primeiro

O segundo turno teve uma dinâmica diferente da primeira votação. A abstenção caiu ao menor nível em duas décadas, e o resultado contrariou as posições montadas por parte do mercado. 

As pesquisas indicavam uma disputa apertada, mas os preços chegaram à sexta-feira refletindo uma confiança maior no desfecho oposto.

Um Congresso menos amigável

O novo mandato começa com um país dividido e um Congresso em que a direita saiu fortalecida e o centro encolheu. O Centrão, bloco de partidos que costuma se aproximar de quem governa, segue como fiel da balança, e seu apoio nunca sai de graça.

Na prática, cada votação será negociada, e cada negociação tem custo para o Orçamento. A reeleição de Hugo Motta e Davi Alcolumbre, presidentes da Câmara e do Senado, vira peça importante para o governo destravar a pauta.

Somam-se a isso a tensão envolvendo o Supremo e o pedido de anulação do segundo turno anunciado por Flávio Bolsonaro, que não reconheceu o resultado. 

Ruído político custa caro em prêmio de risco, aquele adicional que o investidor cobra para continuar segurando ativos brasileiros quando o horizonte fica nebuloso.

O ajuste que todos querem ver

O ponto que vai definir a intensidade e a duração do estresse é fiscal. A equipe de Lula prepara uma proposta de emenda constitucional para permitir mirar o centro da meta das contas públicas e congelar mais gastos se a trajetória da dívida exigir. 

Pode ser o primeiro gesto para recuperar credibilidade. Mas o envio ainda depende de quem vai ocupar Fazenda, Planejamento e Casa Civil, além das diretorias vagas no Banco Central.

O desafio é conhecido. O terceiro mandato terminou com gastos maiores e dívida subindo em relação ao PIB, e a própria equipe econômica da campanha já reconheceu a necessidade de ajuste. 

Entre reconhecer e entregar, porém, existe um Congresso inteiro.

Analistas lembram que choques assim costumam ter duas fases. Primeiro vem a correção aguda. Depois, se surgirem metas fiscais críveis, vem algum alívio. Sem elas, o susto vira tendência, com dólar mais alto, inflação esperada subindo e o Banco Central obrigado a frear o ciclo de cortes da Selic, a taxa básica de juros.

Quem paga a conta

Para o cidadão comum, esse debate chega na forma de crédito mais caro e combustível pressionado. Para o governo, é a chance de mostrar que a campanha acabou e a gestão começou e os investidores estão errados.

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