Quem acompanha o mercado financeiro sabe que ele raramente admite um erro. Prefere chamar de reprecificação. É exatamente isso que deve acontecer nesta segunda-feira, depois que Lula venceu o segundo turno com 51,76% dos votos contra 48,24% de Flávio Bolsonaro, em um resultado que os preços simplesmente não tinham considerado.
A queda das ações e a alta do dólar e dos juros são o capítulo previsível. O capítulo interessante começa depois, quando o investidor para de olhar para a urna e passa a olhar para Brasília.
Um segundo turno diferente do primeiro
O segundo turno teve uma dinâmica diferente da primeira votação. A abstenção caiu ao menor nível em duas décadas, e o resultado contrariou as posições montadas por parte do mercado.
As pesquisas indicavam uma disputa apertada, mas os preços chegaram à sexta-feira refletindo uma confiança maior no desfecho oposto.
Um Congresso menos amigável
O novo mandato começa com um país dividido e um Congresso em que a direita saiu fortalecida e o centro encolheu. O Centrão, bloco de partidos que costuma se aproximar de quem governa, segue como fiel da balança, e seu apoio nunca sai de graça.
Na prática, cada votação será negociada, e cada negociação tem custo para o Orçamento. A reeleição de Hugo Motta e Davi Alcolumbre, presidentes da Câmara e do Senado, vira peça importante para o governo destravar a pauta.
Somam-se a isso a tensão envolvendo o Supremo e o pedido de anulação do segundo turno anunciado por Flávio Bolsonaro, que não reconheceu o resultado.
Ruído político custa caro em prêmio de risco, aquele adicional que o investidor cobra para continuar segurando ativos brasileiros quando o horizonte fica nebuloso.
O ajuste que todos querem ver
O ponto que vai definir a intensidade e a duração do estresse é fiscal. A equipe de Lula prepara uma proposta de emenda constitucional para permitir mirar o centro da meta das contas públicas e congelar mais gastos se a trajetória da dívida exigir.
Pode ser o primeiro gesto para recuperar credibilidade. Mas o envio ainda depende de quem vai ocupar Fazenda, Planejamento e Casa Civil, além das diretorias vagas no Banco Central.
O desafio é conhecido. O terceiro mandato terminou com gastos maiores e dívida subindo em relação ao PIB, e a própria equipe econômica da campanha já reconheceu a necessidade de ajuste.
Entre reconhecer e entregar, porém, existe um Congresso inteiro.
Analistas lembram que choques assim costumam ter duas fases. Primeiro vem a correção aguda. Depois, se surgirem metas fiscais críveis, vem algum alívio. Sem elas, o susto vira tendência, com dólar mais alto, inflação esperada subindo e o Banco Central obrigado a frear o ciclo de cortes da Selic, a taxa básica de juros.
Quem paga a conta
Para o cidadão comum, esse debate chega na forma de crédito mais caro e combustível pressionado. Para o governo, é a chance de mostrar que a campanha acabou e a gestão começou e os investidores estão errados.