Mal saiu o último boletim da apuração e o mercado já tinha estourado o champanhe que estava guardado desde sexta. O EWZ, fundo que reúne ações brasileiras negociadas em Nova York, disparou cerca de 10% no after market.
Para o pregão de hoje, isso sugere abertura já com alta expressiva, e olha que a bolsa já tinha subido 2,63% na sexta, sem saber o resultado. É fato que o mercado sempre antecipa os resultados.
A leitura dos investidores segue o seguinte raciocínio, o de que o novo arranjo político abriria espaço para ajustar as contas públicas. A carteira dessa aposta, o clássico "Kit Brasil", já está montada. Na frente vêm Petrobras e Banco do Brasil, que o mercado enxerga como menos expostas a interferência.
Logo atrás, as empresas que mais sofrem com “dinheiro caro”, construtoras, varejistas e companhias alavancadas, que disparam com a chance de um alívio no crédito. Tudo isso puxado pelo fechamento da curva de juros futuros (DIs), que já embute cortes na Selic, e por um dólar que perde força. Só que hipótese não reduz dívida.
A festa começou antes do convite ficar pronto
O primeiro turno surpreendeu. Flávio Bolsonaro fez 47% dos votos válidos contra 45% de Lula, e a corretora Ativa e o site de apostas Polymarket passaram a ver mais de 80% de chance de vitória dele no dia 25. O PL quase dobrou a bancada no Senado, o que alimentou a aposta de que haveria votos para um ajuste fiscal.
Repare no condicional. O programa econômico apresentado até aqui é vago, e ajuste de verdade passa por Previdência, gastos obrigatórios e outras medidas que não foram aprofundadas em campanha.
A dívida pública já encosta em 83% do PIB, o mercado concedeu o benefício da dúvida, que costuma ter validade tão curta quanto a de um iogurte.
Três semanas é uma eternidade em Brasília
O presidente Lula avisou que parte para o ataque, e o Barclays, banco britânico, alerta que tratar a disputa como resolvida é precipitação. Mas a história diz que desde a redemocratização ninguém virou um segundo turno.
O Senado discute nesta semana a PEC, proposta de emenda à Constituição, que acaba com a escala 6x1, bandeira do governo. E a Polícia Federal ouve Gabriel Galípolo e Roberto Campos Neto, atual e ex-presidente do Banco Central, como testemunhas no caso Master, escândalo que respinga nos dois lados.
O IPCA não liga para a apuração
Enquanto a bolsa comemora, a economia segue onde estava no sábado. A produção industrial caiu 0,6% em agosto e já há quem fale em PIB negativo no trimestre. Na sexta-feira, dia 09 sai o IPCA, a inflação oficial, com previsão de 0,70% em setembro, a maior para o mês desde a pandemia.
Com a Selic em 13,75%, a queda de juros que o mercado ensaia depende menos de eleição e mais desse termômetro.
China de folga, enquanto isso, no Oriente Médio
Ataques no Estreito de Ormuz e a escalada no Iêmen mantêm o Brent, referência do petróleo, acima de US$ 100.
Na quarta-feira sai a ata do Fed, o banco central americano, que flerta com alta de juros. E a China segue em feriado até quarta.
Euforia de dia seguinte é ótima para quem já estava posicionado e traiçoeira para quem chega atrasado. Nesta semana, o mercado precifica uma possível alta expressiva. Até o dia 25, porém, vai querer números que a fundamentem.
Só cuidado com a ressaca. Às vezes, a cobrança é tão alta que o prazer da festa pode não compensar.