Rafa AnthonyTrader de dólar há 10 anos, professor e especialista em Market Profile, uma poderosa ferramenta de análise do mercado

Mercado compra sonhos que não foram entregues e payroll foi o golpe de misericórdia

Publicado em 06/06/2026 às 06:00.

A semana começou com o mercado tentando convencer a si mesmo de que Trump resolveria o Oriente Médio antes do almoço. Terminou com o payroll destruindo a narrativa de que o Fed cortaria os juros no segundo semestre, o Hezbollah rejeitando o cessar-fogo que o mercado já havia precificado, e o Ibovespa acumulando mais uma semana longe dos 200 mil pontos que pareciam inevitáveis em abril.

Entre os dois extremos, aconteceu muita coisa.

A SpaceX chegou

Wall Street abriu a semana em modo euforia com inteligência artificial e fechou com o IPO bilionário da SpaceX dominando a conversa. A empresa de Elon Musk definiu o preço em 135 dólares por ação antes do roadshow, algo incomum em Wall Street, e quer captar até 85 bilhões numa avaliação de 1,77 trilhão. A Morningstar acha que vale menos da metade. O mercado não necessariamente discorda. Ele simplesmente não se importa.

A Alphabet fez movimento na direção oposta. Anunciou captação de 84 bilhões para expandir infraestrutura de IA, e o mercado reagiu mal. Emitir ações para financiar capex em ambiente de juros altos pede paciência. O mercado não estava no clima.

Brasília entrou na disputa

O tarifaço americano de 25% sobre produtos brasileiros produziu mais barulho político do que impacto financeiro imediato. A decisão final só sai em julho, e a Bolsa reagiu de forma contida. Mas o episódio acelerou algo latente, a confusão entre política comercial e campanha presidencial.

Lula associou o tarifaço à viagem de Flávio Bolsonaro à Casa Branca. Flávio enviou carta a Marco Rubio pedindo que os Estados Unidos desistissem da medida. Trump publicou elogio ao senador nas redes. Rubio citou o Brasil no Senado deixando implícita sua preferência por mudança política no País. Em algum momento da semana ficou difícil saber se o assunto era comércio exterior ou calendário eleitoral de 2026.

A conta do petróleo

A Petrobras aderiu ao subsídio do diesel de 1,12 real por litro, e o Citi estimou impacto negativo de 3 bilhões de dólares no balanço anual. As ações caíram mesmo num dia em que o petróleo subiu. É o preço de ser empresa estratégica num país com eleição no horizonte.

O Payroll matou o argumento

E então chegou a sexta com 172 mil vagas criadas em maio, o dobro do esperado, mais 93 mil de revisões retroativas. O Treasury de dez anos tocou 4,5%. O dólar subiu. As apostas em corte do Fed para o segundo semestre recuaram.

Por aqui, a curva de juros já vinha sendo reprecificada desde segunda, com o mercado dividido entre um corte de 0,25 ponto no Copom e pausa direta na Selic. O payroll apenas confirmou o que os dados domésticos já diziam.

O mercado tentou comprar várias narrativas ao longo dos últimos cinco dias. Paz no Oriente Médio, Fed dovish, Copom cortando, Brasil crescendo sem inflação. Os dados reais foram desfazendo cada uma delas, com juros e correção, deixando a bolsa em patamares de 06 meses atrás e o Dólar trabalhando de volta acima dos R$ 5.10

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