Rafa AnthonyTrader de dólar há 10 anos, professor e especialista em Market Profile, uma poderosa ferramenta de análise do mercado

Mercado reprecifica risco político após áudio entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro

Publicado em 15/05/2026 às 17:49.Atualizado em 15/05/2026 às 17:55.

Esta foi uma semana em que o mercado financeiro brasileiro decidiu largar de mão, ao menos por alguns dias, a guerra no Oriente Médio e a disputa comercial entre Estados Unidos e China, para olhar para dentro de casa. O gatilho foi político, e o impacto foi imediato nas cotações.

O áudio que moveu o mercado

Na quarta-feira, a divulgação de mensagens e um áudio de Flávio Bolsonaro pedindo recursos ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme sobre seu pai provocou um abalo que poucos esperavam com tanta intensidade. Em questão de minutos, o dólar saiu da casa dos R$ 4,90 e cruzou a barreira dos R$ 5. Os juros futuros acumularam até 30 pontos de prêmio nos vencimentos mais longos, e o Ibovespa despencou mais de 3 mil pontos, encerrando próximo dos 177 mil pontos.

A leitura predominante entre os investidores foi clara, o episódio atingiu diretamente a principal aposta que vinha sustentando o rali recente dos ativos brasileiros. A perspectiva de uma alternância na política econômica em 2027, com Flávio crescendo nas pesquisas, havia se tornado uma tese de investimento concreta nos últimos meses. Com o áudio vazado, essa narrativa perdeu força.

Gasolina amplia temor fiscal

Para piorar o humor do mercado, o governo anunciou no mesmo dia uma subvenção direta aos combustíveis, com a possibilidade de subsidiar até R$ 0,89 por litro da gasolina. A medida veio após sinalizações de que a Petrobras precisaria reajustar preços em breve, diante de uma defasagem que chegou a 69% em relação ao mercado internacional.

O custo da operação é relevante. Estimativas apontam que, se o teto for integralmente utilizado, a despesa pode chegar a R$ 2,5 bilhões por mês, com potencial de R$ 11 bilhões em dois meses considerando gasolina e diesel juntos. O governo sustentou que há neutralidade fiscal, já que a alta do petróleo também amplia receitas de royalties e dividendos da Petrobras. Mas o mercado não comprou o argumento sem ressalvas, e os juros futuros abriram mais ainda na tarde de quarta.

Trump, Xi Jinping e o mundo lá fora

Do lado externo, a semana também trouxe movimentos importantes. A visita de Donald Trump à China tratou de acordos em comércio, inteligência artificial, energia e até cooperação indireta nas negociações com o Irã sobre o Estreito de Ormuz. A Nvidia recebeu autorização para vender chips a grandes empresas chinesas, e a Boeing teria fechado um pedido de 200 aeronaves por parte de Pequim.

O encontro ajudou a sustentar o apetite por risco em Nova York, onde S&P 500 e Nasdaq renovaram máximas históricas ao longo da semana. A tensão persistente ficou por conta de Taiwan, com Xi Jinping alertando para o risco de "confrontos e até conflitos" caso o tema da independência da ilha não seja tratado com cuidado.

Atenção redobrada

O mercado aguarda com atenção os resultados do Datafolha, que serão divulgados ainda hoje. A pesquisa chega em momento importante, é a primeira após o caso Vorcaro, a rejeição de Jorge Messias ao STF e o pacote de medidas anunciado pelo governo nas últimas semanas. 

A fotografia eleitoral que o levantamento vai entregar pode definir o humor dos investidores na semana que começa. Enquanto isso, o dólar segue firme, trabalhando nos níveis de preço do início de abril, sem sinais claros de reversão. Enquanto o mercado não mostrar o contrário, esses movimentos parecem longe de ter terminado. Por ora, a palavra que resume o momento é uma só, proteção.

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