Rafa AnthonyTrader de dólar há 10 anos, professor e especialista em Market Profile, uma poderosa ferramenta de análise do mercado

Nem o lucro da Nvidia e nem a paz convenceram o mercado financeiro

Publicado em 22/05/2026 às 17:48.

Foi uma semana em que os números bateram recorde, a diplomacia acenou com paz e o mercado ficou olhando para os dois com a mesma desconfiança. A ata do Fed, divulgada na quarta-feira, confirmou o que os Treasuries já vinham precificando. O banco central americano está mais dividido e mais duro do que o esperado, com quatro dissidências na última reunião, o maior número desde 1992. Horas depois, a Nvidia entregou lucro de US$ 58 bilhões no trimestre, crescimento de 211% na comparação anual. A ação recuou. Em qualquer outra semana, esse resultado seria o evento da temporada. Nessa, mal deu para notar.

O Fed que o mercado não queria ver
A ata da reunião de abril, a última presidida por Jerome Powell, revelou um comitê que discutiu abertamente retomar o ciclo de alta de juros. Quase a totalidade dos membros observou risco elevado de a inflação permanecer acima da meta por tempo prolongado. O principal combustível, literal e figurado, é o Oriente Médio. O conflito com o Irã empurrou os preços de energia e contaminou uma gama crescente de bens e serviços. 

O CPI de abril fechou em 3,8% em doze meses e o PPI chegou a 6%, o maior patamar desde 2022. As apostas de aperto pelo Fed em dezembro subiram de 45% para 57% em um único pregão. O mercado que celebrava a possibilidade de paz ao meio-dia estava ampliando suas estimativas de alta de juros à tarde.

O alívio que durou horas

No front diplomático, a semana terminou no ritmo que começou, um passo à frente meio passo de dúvida. Os relatos de avanço nas negociações entre Washington e Teerã foram suficientes para mover o petróleo de US$ 109 pela manhã até abaixo de US$ 103 no fechamento de quinta-feira. Os impasses centrais seguem abertos, o destino do urânio enriquecido iraniano, o controle sobre Ormuz e as garantias que cada lado exige do outro. A Al Arabiya, um dos principais canais de notícias internacionais em língua árabe, negou que um acordo havia sido fechado. O mediador paquistanês adiou sua viagem a Teerã.

A conta no fiscal brasileiro

No front doméstico, a sexta-feira traz o Relatório Bimestral com expectativa de bloqueio superior aos R$ 1,6 bilhão já contingenciados. A pressão vem de onde é mais difícil conter, a Previdência, com alta estimada de R$ 11 bilhões nas despesas. O governo atribui o movimento à redução da fila do INSS, não à deterioração estrutural. Pode ser verdade. Mas fila represada resolvida vira gasto permanente, e o mercado já aprendeu a fazer essa leitura.

Em uma semana de mercado lateralizado, tivemos o balanço da empresa mais valiosa do mundo sendo praticamente ignorado, o banco central mais poderoso sinalizando alta de juros e uma negociação de paz que avançou sem chegar a lugar nenhum. Quando o mercado não consegue celebrar nem recordes, fica muito difícil tomar risco e acreditar em um dos lados. 

O que a semana que vem pode trazer

Se um acordo entre Washington e Teerã sair do papel, o cenário muda rapidamente. O petróleo tem espaço para recuar com força, o que aliviaria as expectativas de inflação, tiraria pressão do Fed e abriria caminho para os ativos de risco respirarem. O dólar poderia voltar à casa de R$ 4,80 e o Ibovespa teria combustível para testar novas máximas. 

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