Rafa AnthonyTrader de dólar há 10 anos, professor e especialista em Market Profile, uma poderosa ferramenta de análise do mercado

O Banco Central foi tão transparente que confundiu o mercado

Publicado em 26/06/2026 às 18:27.Atualizado em 26/06/2026 às 18:29.

A semana começou com o mercado esperando que o Banco Central respondesse uma pergunta simples. Terminou com o mercado tentando adivinhar qual era a pergunta.

Três documentos em cinco dias, o comunicado da reunião de junho, a ata e o Relatório de Política Monetária, e cada um entregou uma versão ligeiramente diferente da mesma história. O comunicado gerou o ruído. A ata dividiu o mercado ao meio, com 16 casas apostando em pausa e 16 em novo corte de juros. O RPM (Relatório de Política Monetária) inclinado para corte chegou com Galípolo explicando que o problema do comunicado foi excesso de informação, não falta dela. Dito de outro jeito, o BC foi tão transparente que ninguém entendeu nada.

O presidente do BC tem razão em um ponto. Há uma confusão crescente entre clareza na comunicação e antecipação de decisões. O mercado quer orientação, o BC quer flexibilidade, e os dois estão falando línguas diferentes. O que ficou da semana foi a percepção de que o Copom quer preservar liberdade de manobra, mas ainda não aprendeu a comunicar isso sem parecer que está improvisando.

A dificuldade do Banco Central em comunicar o futuro encontrou um aliado improvável, um mundo que também resolveu ficar menos previsível.

O petróleo ainda escreve parte da ata

O outro grande personagem da semana foi o Oriente Médio. O acordo provisório entre Estados Unidos e Irã normalizou o fluxo pelo Estreito de Ormuz, derrubou o Brent quase dez por cento em três dias e deu ao mercado brasileiro o argumento desinflacionário que faltava para justificar mais um corte da Selic. A curva de juros abriu espaço, o Ibovespa respirou.

Aí veio o ataque a um cargueiro de bandeira de Singapura, na quinta-feira, e Teerã mencionou pedágios para navegação segura. O mercado continuou acreditando no acordo, mas fez uma anotação mental, e os juros longos recuaram menos do que poderiam ter recuado.

O resultado é que a política monetária brasileira ficou, ao menos por alguns dias, atrelada a um conflito que nenhum modelo de projeção do Focus consegue prever. O Copom calibra juros olhando para a inflação. A inflação agora olha para Ormuz.

O Fed mantém expectativa mesmo com PCE otimista

Do lado americano, a semana entregou um PCE (Índice de Preços de Gastos de Consumo Pessoal) levemente abaixo do esperado, o que trouxe algum alívio nos Treasuries e no dólar. Mas o ambiente permanece hawkish. Kevin Warsh surpreendeu ao priorizar o combate à inflação logo no início da gestão, e o mercado já precifica alta de juros nos Estados Unidos em setembro com probabilidade de 62 por cento.

Para o Brasil, isso significa câmbio pressionado e limite para o alívio nos juros longos, independentemente do que o IPCA-15 mostre. A prévia de inflação de junho ficou em 0,41 por cento, abaixo da mediana, com núcleos desacelerando. Boas notícias. Mas o real continua mais atento ao DXY (US Dollar Index), índice que mede o valor do dólar americano em comparação a uma cesta das seis principais moedas de economias desenvolvidas do que ao Banco Central.

Pergunta difícil tem isso. Quanto mais você explica, mais aparecem as dúvidas. 

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