Rafa AnthonyTrader de dólar há 10 anos, professor e especialista em Market Profile, uma poderosa ferramenta de análise do mercado

O Copom cortou o juro e ainda conseguiu parecer o vilão da semana

Publicado em 19/06/2026 às 19:04.Atualizado em 19/06/2026 às 19:06.

Tem decisão de banco central que erra pelo que faz. Essa errou pelo que disse. O Copom reduziu a Selic em 0,25 ponto, e a taxa está em 14,25%, foi exatamente o que o mercado esperava, e mesmo assim conseguiu sair do prédio carregando a fama de complacente com a inflação. Façanha rara, daquelas que só comunicado mal escrito consegue entregar.

O problema não foi o corte. Foi o pacote completo. O comunicado reconheceu atividade forte, inflação acima da meta, expectativas desancoradas e ainda acrescentou mais um risco de alta ao balanço. Qualquer leitor desavisado fecharia o texto esperando uma pausa solene no ciclo de flexibilização. Em vez disso, o Banco Central abriu uma fresta, alongou o horizonte relevante para o primeiro trimestre de 2028 e deixou no ar a possibilidade de continuar cortando.

Diagnóstico Grave, Prescrição Medicamentosa Leve

A combinação não passou despercebida. Economistas de peso classificaram o texto como incoerente, alguns sem papas na língua, e o mercado reagiu como reage quando desconfia de um médico que descreve uma fratura exposta e prescreve repouso. 

A curva de juros se inclinou, com as taxas longas disparando, sinal de que os agentes já precificam a conta sendo paga lá na frente, com juros ainda mais altos para corrigir o que parece um passo em falso agora.

O temor mais sério é outro. Há quem leia esse movimento como o Banco Central tratando o centro da meta de inflação como se fosse apenas um piso confortável, não o alvo de verdade. Se essa percepção pegar, o estrago não é só nesta reunião. É reancorar expectativas num patamar mais alto, o tipo de dano que leva anos para reverter.

Por ora, fica a sensação de que o Banco Central trocou um problema de juro alto por um problema de credibilidade. E esse, historicamente, sai bem mais caro para resgatar.

O Fed Fez o Oposto e Ainda Assim Ganhou

Nos EUA, Kevin Warsh estreou no Fed batendo na tecla oposta. Juro mantido, mas o recado foi de dureza, com o dot plot, gráfico com a previsão individual de curto e longo prazo de cada um dos membros do Fed sobre para onde as taxas de juros americanas devem ir nos próximos anos, mostrando mais dirigentes dispostos a subir do que a cortar. Resultado, o dólar ganhou força global, os Treasuries longos dispararam e o real apanhou mais que seus pares justamente porque o Brasil escolheu nadar contra a corrente no pior momento possível para fazer isso.

É a ironia da semana. O banco central mais hawkish do mundo desenvolvido, com a economia mais contida, praticamente sumiu do radar das manchetes locais porque o Copom criou seu próprio noticiário.

Ormuz reabriu, Mas Ainda há Desconfiança

No fundo do quadro, o acordo entre Estados Unidos e Irã segue de pé, com petroleiros voltando a cruzar o Estreito de Ormuz e o petróleo encontrando um equilíbrio raro depois de semanas de montanha russa. Mas ninguém está comemorando demais. O período de 60 dias para negociar os termos definitivos começou, e tanto republicanos nos Estados Unidos quanto o establishment em Israel já avisaram que não consideram o capítulo encerrado. A trégua é real, a confiança ainda não é.

A semana inteira girou em torno da Superquarta e das decisões dos bancos centrais. Não dá para baixar a guarda, porque a semana que vem chega ainda mais carregada.

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