Alguns mercados abrem a semana querendo saber o que vai acontecer. O brasileiro abre querendo entender o que já aconteceu. O comunicado do Copom da semana passada deixou rastros suficientes para manter o mercado ocupado até quinta, quando Galípolo senta na frente de um microfone e, com sorte, diz o que quis dizer na quarta anterior.
A agenda da semana é densa o suficiente para que ninguém precise inventar drama. Ata do Copom amanhã, IPCA-15 na quarta, Relatório de Política Monetária e coletiva de Galípolo e Picchetti na quinta, dados do setor externo e Pnad na sexta. No exterior, PMIs ao longo da semana e o PCE (Índice de Preços de Gastos de Consumo Pessoal) americano na quinta, indicador de inflação preferido do Fed, chegando num momento em que qualquer dado que venha acima do esperado vai dar mais argumentos para quem dentro do Fed defende juros altos por mais tempo.
Três Dias para Consertar uma Semana
A ata é a primeira chance do Banco Central de recuperar terreno. O mercado não quer surpresa, quer clareza. Desde a decisão de quarta passada, os juros futuros acumularam quatro pregões de alta e voltaram a rondar os 15% nos vencimentos mais longos. Dar a entender que pode cortar juros com inflação ainda alta e economia aquecida não é o tipo de erro que se apaga com uma entrevista coletiva, mas ajuda. Se a ata confirmar que houve nuance mal comunicada, parte dos prêmios pode ser devolvida. Se reforçar a leitura mais frouxa, a pressão na curva longa vai ser proporcional.
Petróleo Com Prazo de Validade
Do lado externo, o acordo entre Estados Unidos e Irã saiu da Suíça com um mecanismo para conter os combates no Líbano e com canal aberto para o tráfego pelo Estreito de Ormuz. O petróleo comemorou na madrugada e voltou a cair. Esse padrão já virou rotina nas últimas semanas, e consultoras como Capital Economics e UBS lembram que a normalização dos fluxos de energia tende a ser gradual, não imediata. O alívio existe. Sua durabilidade, ainda não.
O Ruído que Vai Crescer
As declarações de Flávio Bolsonaro na sexta, descartando reformas e pisos constitucionais, soaram mais como palanque do que como proposta de governo. A pesquisa Datafolha do sábado confirmou o estado da corrida. Lula tem 41% no primeiro turno contra 31% de Flávio, vantagem que cai para quatro pontos no segundo turno, 47% a 43%, com os dois líderes tecnicamente empatados na rejeição. O mercado ainda não está precificando eleição, mas começa a perceber que a oposição, até aqui vista como garantia de mais disciplina fiscal, pode chegar a 2027 com uma agenda parecida com a do atual governo. Quando essa percepção se consolidar, vai aparecer nos juros já como reação do mercado, antes de aparecer nas pesquisas.
Olho Aberto, Dedo no Gatilho
Essa semana pede atenção redobrada. A agenda é densa, os riscos são conhecidos e a margem para surpresas desagradáveis é maior do que o usual. Quem opera com convicção antes da ata, do RPM e do PCE americano está apostando, não investindo. A semana tem resposta para quase tudo que ficou em aberto, mas até lá a cautela não é fraqueza. É protocolo.