A sexta-feira chegou e nessa semana tivemos um dado de inflação bom nos Estados Unidos, guerra escalando no Oriente Médio, tarifaço confirmado contra o Brasil e a Netflix apanhando feio na bolsa. O resultado foi o Ibovespa, que é o principal índice da bolsa brasileira, perdendo quase 2.200 pontos em um único pregão.
A inflação americana fingiu que está tudo resolvido
Nos Estados Unidos saíram dois indicadores de preços. O CPI, que mede a inflação sentida pelo consumidor, veio mais fraco que o esperado na terça-feira. Na quarta, veio o PPI, que mede a inflação nas fábricas e indústrias, também dentro do previsto. Dava para o mercado declarar vitória contra a inflação.
Só que o Fed não deixou barato. Kevin Warsh, que hoje comanda o Fed, chamou os dois números de medidas imperfeitas. Christopher Waller, um dos diretores da instituição, avisou que um mês bom não muda o quadro. E Lorie Logan, outra diretora do Fed, foi mais direta ainda e disse que não parece haver retorno sustentável à meta de inflação. Traduzindo, o Fed aceitou o presente, mas não jurou lealdade eterna.
Enquanto isso, o petróleo insistiu em roubar a cena. Subiu quase 12% na semana, encostando nos 85 dólares o barril, puxado pela guerra entre Estados Unidos e Irã, que ameaça rotas marítimas importantes no Oriente Médio, como o Estreito de Ormuz. Desinflação bonita no papel, petróleo caro por fora. Difícil comemorar dado fraco de preço quando o combustível está pressionado.
O tarifaço virou personagem da eleição
No Brasil, a novela ganhou um capítulo novo. O USTR, que é o órgão do governo americano responsável pelo comércio exterior dos Estados Unidos, confirmou a tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. Em vez de assustar só o mercado, a decisão virou munição política. Uma pesquisa mostrou que a maioria dos brasileiros culpa o pré-candidato Flávio Bolsonaro pelo tarifaço, e isso é o tipo de dado que vale mais para o presidente Lula do que qualquer indicador econômico da semana.
O governo reagiu rápido. Uma coletiva reuniu seis ministros, entre eles Márcio Elias Rosa, que cuida do comércio exterior, Geraldo Alckmin, vice-presidente da República, Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central do Brasil, e João Paulo Capobianco, do Ministério do Meio Ambiente. Cada um saiu em defesa de uma frente diferente, do sistema de pagamentos Pix aos números de desmatamento, sempre reforçando que o Brasil vai seguir negociando sem abrir mão da soberania.
Tecnicamente, o impacto real da tarifa é pequeno, algo entre poucos décimos de ponto percentual no PIB brasileiro, segundo estimativas de bancos e consultorias. Politicamente, é outra história, e foi essa parte que a bolsa decidiu precificar com desconto.
Bolsa aprendeu a temer o próprio calendário
Depois de meses flertando com recordes, o Ibovespa fechou a semana devolvendo parte do otimismo recente. Pesou o vencimento de opções, o rombo fiscal criado pela aprovação de novos gastos no Senado e agora o capítulo eleitoral turbinado pelo tarifaço.
A mineradora Vale caiu mesmo com o minério de ferro estável, os bancos recuaram em bloco e até a Petrobras, que vinha surfando o petróleo em alta, resolveu tirar o pé do acelerador.
O investidor entrou na semana tentando entender quando viriam os próximos cortes de juros nos Estados Unidos. Sai dela percebendo que essa já não é mais a única pergunta importante. Agora, inflação, guerra e política disputam o mesmo espaço na formação dos preços. E, por enquanto, nenhuma delas parece perto de um desfecho.