Rafa AnthonyTrader de dólar há 10 anos, professor e especialista em Market Profile, uma poderosa ferramenta de análise do mercado

O Mercado andou em círculos, mas a volatilidade não foi embora

Publicado em 22/08/2026 às 06:00.

O mercado financeiro brasileiro passou a semana inteira andando em círculos, entre o entusiasmo passageiro injetado pela intervenção do Tesouro americano e o desânimo reacendido pelo petróleo em disparada e pelos juros longos dos Estados Unidos, que voltaram a subir quase tão rápido quanto tinham caído.

Na quarta feira, Scott Bessent, secretário do Tesouro americano, decidiu bancar o papel de bombeiro particular dos juros longos dos Estados Unidos. Anunciou que vai dobrar as recompras de Treasuries, os títulos da dívida pública americana, elevando o volume de US$2 para US$4 bilhões de dólares por operação, numa tentativa de segurar uma dívida que acabou de estourar os US$40 trilhões de dólares. 

O mercado aplaudiu de pé por algumas horas. As taxas longas derreteram, o dólar cedeu, o Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, rompeu os 170 mil pontos, e todo mundo comemorou como se o problema fiscal americano tivesse sido resolvido.

Já na quinta feira, dia 20, menos de vinte e quatro horas depois, o rendimento da T note de dez anos, um dos principais títulos do Tesouro dos Estados Unidos, já estava de volta perto de 4,7%, e o T bond de trinta anos voltou a rondar 5,25%. A festa acabou antes mesmo de servirem a sobremesa.

Recompra de títulos é analgésico

O gesto de Bessent tem o mesmo efeito de tomar um remédio para dor de cabeça sem diagnosticar a causa. Ninguém discorda que o déficit americano gira perto de 6% do PIB, que o boom de inteligência artificial segue puxando capital para cima e que o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, permanece dividido entre acalmar a inflação e não sufocar uma economia que ainda cresce forte. 

Diante disso, aumentar recompras de dívida de longo prazo é útil para dar liquidez pontual, mas não muda uma vírgula da equação estrutural. 

Na ausência de consolidação fiscal de verdade, o mercado tratou o gesto como apenas um remédio paliativo.

Petróleo não está para conversa

Enquanto Washington tentava convencer o mercado de que os juros estavam sob controle, o petróleo seguia sua própria agenda, alheio a qualquer boa vontade. Entre terça, e hoje, cinco pregões seguidos de alta levaram o Brent, referência internacional de preço do petróleo, para perto de noventa e quatro dólares o barril, turbinado pela retórica cada vez mais dura do presidente americano, Donald Trump, contra o Irã, que fala em guerra econômica e prometeu as sanções mais duras da história contra Teerã.

O Irã, por sua vez, não deu sinais de recuar e ameaçou reagir com tudo o que tiver disponível. 

O resultado prático é que o Fed ganha mais um motivo para hesitar justamente quando o mercado, ainda na terça, já tinha se convencido de que setembro seria de corte nos juros americanos.

Casas Bahia não é exceção

Por aqui, logo na segunda-feira, o colapso das ações da varejista Casas Bahia, que pediu recuperação judicial e viu seus papéis virarem pó, derrubou junto o humor do setor financeiro, funcionando como retrato cruel do que juros elevados por tempo demais fazem com balanços frágeis. Enquanto isso, os concorrentes provavelmente comemoravam a desgraça alheia. A ironia é que ninguém comemora por muito tempo em um ambiente em que o crédito segue apertado para todo mundo.

No fim das contas, depois de cinco pregões de sobe e desce, bolsa e câmbio terminaram a semana quase no mesmo lugar de onde começaram. Mas convém não confundir estabilidade momentânea com tranquilidade. Os últimos acontecimentos políticos adicionam novos ingredientes a um mercado incerto, e a volatilidade pode voltar na semana que vem, sem pedir licença.

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