A semana começa com o Oriente Médio fazendo exatamente o que o mercado não gosta, ignorar o roteiro combinado. Depois de o relatório de empregos americano de maio vir praticamente no dobro da mediana das estimativas, os investidores já tinham motivo suficiente para tensão. Aí vieram os mísseis iranianos, a resposta israelense, e Trump dizendo que Netanyahu "não vai ter escolha, eu é que mando" enquanto Tel Aviv continuava tomando suas próprias decisões. A janela de paz que o mercado celebrou na sexta fechou bem antes do fim do fim de semana.
Trump Manda, ou Acha Que Manda
A declaração presidencial ao Financial Times foi das mais contundentes da gestão. Trump afirmou que Netanyahu terá de aceitar qualquer acordo que Washington fechar com o Irã. No mercado, isso se chama sinalização de intenção. Na prática, Israel atacou alvos militares iranianos durante a noite e o petróleo tipo Brent voltou a subir mais de 4%, chegando a US$ 96 o barril. A diferença entre o que Trump diz e o que Netanyahu faz está virando, ela mesma, um vetor de risco.
A Opep Tentou Ajudar, mas o Mundo Cooperou Pouco
A Opep+ anunciou no domingo um aumento gradual de produção a partir de julho. A Fitch até prevê excesso de oferta de petróleo a partir de setembro. O problema é que "assim que as condições permitirem" virou a frase mais elástica do setor de energia. Ormuz ainda não reabriu, a guerra não terminou, e a S&P Global avisa que a normalização logística pode levar até 2028. A Iata estimou que o lucro global das companhias aéreas cairá pela metade neste ano, com o querosene de aviação 70% mais caro. A Azul já anunciou novos cortes de frequências. O passageiro ainda não sabe, mas a conta está chegando.
O Fed Ganhou Mais um Argumento
Com o mercado de trabalho americano aquecido e a inflação de energia pressionando, o espaço para corte de juros nos Estados Unidos foi de estreito para praticamente inexistente.
A semana traz dois termômetros decisivos, o índice de preços ao consumidor americano na quarta-feira e o índice de preços ao produtor na quinta. Os dois medem
a pressão inflacionária por ângulos diferentes e vão calibrar a próxima decisão do Fed. Os contratos futuros já precificam probabilidade próxima de 80% de alta de juros até dezembro. E o Brasil sofre consequência direta, com a narrativa de manutenção de juros e a grande probabilidade do Copom manter a Selic em 14,5% na próxima reunião, que acontecerá semana que vem dias 16 e 17 de junho de 2026. O IPCA de maio, na sexta, fecha o pacote.
Oito Semanas no Vermelho
O Ibovespa acumula a maior sequência negativa desde o Plano Real. O dólar fechou acima de R$ 5,15. O carry trade com o real, que vinha sustentando o câmbio, perde atratividade no ambiente de juro americano ascendente. No noticiário corporativo, a Raízen formalizou reestruturação de dívida de R$ 64,7 bilhões, com conversão de 45% em participação acionária e divisão da empresa em duas. A União Europeia suspendeu importações de carnes e outros produtos de origem animal do Brasil a partir de setembro, atropelando US$ 1,8 bilhão em exportações anuais.
A semana abre com petróleo em alta, juros futuros subindo e Netanyahu fazendo o que bem entende. Pelo menos tem inflação na quarta para animar o debate. Por isso investidores e simpatizantes do mercado, atenção redobrada.