Rafa AnthonyTrader de dólar há 10 anos, professor e especialista em Market Profile, uma poderosa ferramenta de análise do mercado

O mercado comprou a paz. Alguém avisou o Oriente Médio?

Publicado em 26/05/2026 às 06:00.

O petróleo abriu a semana abaixo de US$ 100, o Brent despencou mais de 4% na abertura asiática e investidores foram curtir o feriado de Memorial Day com o coração mais leve. O motivo? Um acordo entre Estados Unidos e Irã que, tecnicamente, ainda não existe.

Mas quem disse que o mercado espera as coisas existirem para precificá-las?

O NYT e o Axios reportaram entendimentos preliminares sobre a reabertura do Estreito de Ormuz, retomada das exportações iranianas e uma janela sobre o programa nuclear. Trump disse que está indo bem, mas pediu paciência. O Irã disse que há divergências. Israel disse que qualquer acordo que não elimine o risco nuclear, não sairá do papel. Três versões do mesmo não-acordo, e o mercado escolheu a mais otimista.

Kevin Hassett, assessor econômico de Trump, aproveitou o domingo para prometer gasolina mais barata, inflação em queda e Fed cortando juros. Em um único pronunciamento. O homem resolveu a economia global antes do almoço.

O Fed estragou o clima

Se o petróleo oferece otimismo, os juros americanos trouxeram a conta. Christopher Waller, um dos membros mais favoráveis a cortar juros dentro do Fed, declarou na sexta que não há a menor chance de corte este ano. O mercado ouviu isso com a surpresa de quem pede sobremesa e o garçom avisa que o restaurante fechou.

A ponta curta dos DIs subiu, com o contrato de janeiro de 2027 chegando a 14,115%. A ponta longa aliviou depois que o Datafolha mostrou Flávio Bolsonaro ainda competitivo no segundo turno, reduzindo o risco eleitoral que pesava sobre a curva.

O Banco Central entrou na semana com uma sinalização discreta, em reunião com economistas, diretores fizeram perguntas sobre projeções de inflação para 2028, incomum nesse tipo de encontro. E a resposta foi otimista, se a ancoragem de longo prazo não piorar, o corte continua. Se deteriorar, a janela fecha.

A eleição que o mercado finge não estar olhando

O "efeito Dark Horse" provou ser menor do que o mercado temia. O Datafolha mostrou Lula abrindo nove pontos no primeiro turno, mas o segundo turno segue em empate técnico, 47% a 43%. Flávio levou um tombo, mas ainda está de pé. A ausência de migração para Zema ou Caiado mostra que a oposição não tem plano B muito animador.

O detalhe incômodo é que cerca de 20% do eleitorado ainda não conhece a relação de Flávio Bolsonaro com Vorcaro. Quando conhecer, pode não gostar. Rejeição subindo é o tipo de sinal que cresce sozinho, sem precisar de ajuda.

A semana traz IPCA-15, PIB do primeiro trimestre, dados de emprego e, nos EUA, o PCE de abril. São os números que vão dizer se a narrativa comprada nesta segunda tem fundamento ou foi só euforia de feriado. Por ora, o mercado está apostando num acordo que não foi fechado, num juro que pode não cair e numa eleição que ainda não começou. O clássico: “O mercado sempre antecipa tudo.”

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