Rafa AnthonyTrader de dólar há 10 anos, professor e especialista em Market Profile, uma poderosa ferramenta de análise do mercado

O mercado esquece a guerra e o payroll antecipado dita o ritmo da semana

Publicado em 29/06/2026 às 09:40.Atualizado em 29/06/2026 às 09:40.

O mercado tem uma habilidade peculiar de trocar de assunto com a mesma velocidade que uma criança perde o interesse por um brinquedo. Na semana passada, o tema era guerra. Nesta segunda, o assunto é emprego. O petróleo despencou, Ormuz voltou a funcionar e Wall Street já esqueceu os mísseis, porque o payroll bate à porta mais cedo, nesta quinta-feira, dia 4 de julho. O cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã continua sendo um conceito elástico. Houve trocas de tiros no Golfo Pérsico no fim de semana, ataques americanos em instalações iranianas, mísseis iranianos contra bases no Kuwait e no Bahrein. O Hezbollah rejeitou o acordo negociado para o Líbano. Em qualquer outro momento, isso seria manchete de capa por uma semana. Mas o petróleo Brent rompeu os 72 dólares para baixo, e o mercado decidiu que a guerra, enquanto não fechar Ormuz, é só ruído de fundo.

A mudança de percepção é real e relevante. O estreito deixou de ser a bomba relógio do abastecimento global e passou a ser o principal chip de negociação entre Washington e Teerã. Os americanos abriram rota alternativa por Omã. O Irã fala em 30 dias para normalizar o fluxo. O governo Trump trabalha para desmontar décadas de sanções em troca de petróleo iraniano voltando ao mercado. Se isso acontecer, o alívio inflacionário é significativo, e o Fed ganha espaço que não esperava ter.

Quinta-feira decide mais do que parece
Com o PCE confirmando inflação relativamente comportada, a grande dúvida agora não é mais sobre preços. É sobre emprego. O payroll desta semana, antecipado para quinta-feira por causa do feriado do dia 4 de julho, vai dizer se a economia americana ainda justifica juro elevado por mais tempo. A probabilidade de alta do Fed em setembro, que rondava 70%, caiu para menos de 50% na sexta-feira. Isso, sozinho, já move muita coisa. 

Kevin Warsh, o novo chairman do Fed nomeado por Trump para substituir Jerome Powell, apareceu em Sintra, Portugal, com discurso duro. Kashkari, presidente do Fed de Minneapolis e voz recorrente do FOMC, abandonou a aposta em corte e passou a projetar alta. Williams, presidente do Fed de Nova York e o principal interlocutor do banco central com os mercados globais, disse que a inflação americana segue "indiscutivelmente elevada". O mercado ouviu. E então o petróleo caiu mais 4%, e o mercado revisou tudo de novo. Os Fed boys falam duro. O barril fala mais alto. 

Ibovespa vai ao seu próprio ritmo
Aqui, o ambiente melhorou. O IPCA-15 veio abaixo do esperado. O Relatório de Política Monetária sinalizou flexibilidade. O petróleo mais barato derruba pressão inflacionária e alimenta apostas de novo corte da Selic. O Ibovespa ignorou as techs americanas em queda e fechou a semana com quase 3% de alta, perto dos 174 mil pontos. O setor financeiro puxou. A Petrobras cedeu com o petróleo, mas o investidor parece ter feito as contas e concluído que combustível mais barato ajuda mais do que machuca.

O Itaú mantém projeção de Selic terminal em 14%, com corte só em agosto. Uma parte do mercado aposta em mais de um corte, no ritmo do "stop and go" que virou a marca registrada deste ciclo. O Caged de maio, o IGP-M e a produção industrial vão ajudar a calibrar o tamanho da aposta. Por ora, o mercado escolheu o otimismo com a serenidade de quem nunca ouviu falar de surpresa negativa.

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