Rafa AnthonyTrader de dólar há 10 anos, professor e especialista em Market Profile, uma poderosa ferramenta de análise do mercado

O Mercado precifica a eleição e o petróleo aprendeu a sumir do radar

Publicado em 17/08/2026 às 15:06.

Tem uma máxima recorrente no mercado financeiro que parece piada, mas ninguém acha engraçada. Ela é mais ou menos assim, o investidor passa meses tentando adivinhar os acontecimentos futuros - no caso agora, quem vai vencer a eleição -, descobre a resposta antes da hora e, ainda assim, sai correndo como se tivesse visto um fantasma. Foi exatamente o que aconteceu na semana passada. 

Os mercados preditivos já dão a Lula 67% de chance de reeleição, e o banco americano Citi, um dos maiores bancos do mundo, tirou o Real da cesta de carry trade citando essa "provável" vitória, e o resultado acumulado foi nove pregões seguidos de queda na bolsa e o dólar voltando a trabalhar acima dos R$ 5,20. Ficou muito claro que precificar o resultado eleitoral não é o mesmo que se sentir confortável com ele.

A certeza pode ser assustadora

Há uma diferença enorme entre saber quem vai ganhar e saber o que esse alguém vai fazer com o Tesouro Nacional depois. O JPMorgan, outro gigante financeiro americano que influencia como investidores do mundo todo enxergam países emergentes, rebaixou sua recomendação para as ações brasileiras de compra para neutra. O problema não é ser mercado emergente. O problema é ser o Brasil especificamente, num ano em que a política fiscal parece sem definição, e o governo promete que a conta vai fechar sem nunca mostrar a “planilha”.

Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central e hoje uma das vozes mais ouvidas do mercado, comparou o momento ao período que antecedeu a recessão do governo Dilma, o que para qualquer investidor com memória recente soa como aviso de tempestade.

A agenda da semana não alivia

Nesta segunda, Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, sobe ao palco em evento do Santander, com transmissão ao vivo, bem na hora em que o mercado mais precisa de sinalização e menos confia em promessas verbais. Indicadores como o IGP-10, índice de preços, e o IBC-Br, uma espécie de prévia do PIB, devem reforçar a leitura de desaceleração da atividade. 

Na quarta, a ata da última reunião do Federal Reserve, o banco central americano, ganha peso especial depois que os últimos dados de inflação dos Estados Unidos empurraram para dezembro qualquer aposta de alta de juros por lá. Terça e quinta trazem os balanços de Home Depot e Walmart, gigantes do varejo que funcionam como termômetro do consumidor americano. 

Para fechar, a Receita Federal deve divulgar a arrecadação de julho, com expectativa de crescimento real de quase 7,3%, número que o governo vai adorar exibir enquanto o mercado continua perguntando onde esse dinheiro efetivamente vai parar.

Petróleo dá sossego e não pressiona a economia

Enquanto o Brasil resolve seus dramas, o Oriente Médio segue com o espetáculo paralelo. Estados Unidos e Irã não avançam nas negociações, e mesmo assim o Brent segue educadamente entre US$ 80 e US$ 90, longe dos US$ 150 temidos no início do conflito. 

A explicação não é diplomacia, e sim logística disfarçada de contrabando. Segundo reportagem da Bloomberg, produtores da região do Golfo Pérsico, movimento que inclui o próprio Irã, atravessam o estreito de Ormuz com navios que desligam os sistemas de rastreamento para não serem identificados, e depois transferem a carga para outros petroleiros já do lado de fora, no Golfo de Omã, como quem troca de avião no meio do caminho para despistar. 

O secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, afirmou que 9 milhões de barris por dia passaram por Ormuz na última semana, quase metade do volume normal antes da guerra. Há hoje cerca de 150 navios ancorados ao largo de Omã esperando para receber essa carga, contra apenas 40 em janeiro, um sinal de que a operação está no limite da capacidade.

É essa a expectativa para a semana. Um calendário cheio de indicadores prontos para confirmar a desaceleração econômica, e um mundo em guerra que finge estabilidade através de rotas clandestinas.

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