Se alguém ainda duvidava de que campanha eleitoral tem custo, a semana tratou de mostrar a conta. Em poucos dias, o Congresso aprovou o fim da escala 6x1, o perdão de R$ 12,8 bilhões em dívidas de microempreendedores e a ampliação do teto do MEI.
O mercado, que vinha em ritmo de euforia, precisou reajustar a rota diante do fantasma de sempre, o custo de financiar o governo no longo prazo.
O rali de alta perdeu força
Na terça-feira, esta coluna alertou que a bolsa, muito embalada pelo rali eleitoral, tinha antecipado um ajuste fiscal que ninguém havia colocado no papel. Bastaram três pregões. O Ibovespa saiu do recorde de 209 mil pontos para 204 mil, rejeitou novas altas e passou a andar de lado, com espaço inclusive para uma retração maior.
Parte disso é realização de lucro, o velho hábito de embolsar o ganho antes que ele evapore. A outra parte veio das pesquisas. Quaest e Datafolha mostraram empate técnico entre Flávio Bolsonaro e Lula, e o investidor entendeu que a eleição continua aberta.
O fim da escala 6x1
O placar de 75 a 1 no Senado diz muito sobre o momento. Nenhum lado quis aparecer contra a redução da jornada a dez dias da eleição. Flávio, que chamava a proposta de eleitoreira, votou a favor, enquanto aliados sinalizam a empresários que o tema pode ser revisto depois.
O governo, por sua vez, transformou a PEC em vitrine. Para as empresas, ficam pela frente uma transição de 14 meses e custos que economistas estimam poder pressionar a inflação em até 0,5%.
A tarifa zero no transporte também entrou na lista de medidas eleitorais. A Confederação Nacional dos Municípios estima um custo entre R$ 50 bilhões e R$ 60 bilhões, e a fonte anunciada, as emendas parlamentares, não fecha a conta.
Na sabatina da Globo, Lula descartou cortes de gastos e apostou no crescimento. A campanha de Flávio fala em cortar privilégios em Brasília, também sem apresentar números.
Os EUA também não ajudam
Na terça-feira, apontamos o CPI, índice de inflação ao consumidor dos Estados Unidos, como o risco externo da semana. Ele veio com alta de 0,6% e com o núcleo, medida que exclui alimentos e energia, acima do previsto. No dia seguinte, o PPI, inflação ao produtor, subiu 1,3%, contra 0,5% esperado.
Curiosamente, as apostas de manutenção dos juros pelo Fed, o banco central americano, em outubro seguiram acima de 70%. Kevin Warsh, presidente da instituição, passou pela reunião do FMI em Bangkok sem entregar pistas.
O mercado aposta que o Fed vai esperar até dezembro. Com o petróleo Brent acima de US$ 100, um navio afundado por mina no Estreito de Ormuz e ataques à petroleira saudita Aramco, a aposta tem algo de fé.
A economia brasileira perde fôlego justamente quando as promessas ganham velocidade. Com o segundo turno marcado para o dia 25, a disputa segue aberta e a incerteza deve continuar influenciando os preços. Se houver questionamentos sobre o resultado das urnas, o risco de instabilidade poderá aumentar. Até lá, o investidor precisará separar o que já está estruturalmente precificado daquilo que ainda é apenas expectativa.