Rafa AnthonyTrader de dólar há 10 anos, professor e especialista em Market Profile, uma poderosa ferramenta de análise do mercado

Os riscos chegam em cascata e transformam a última semana antes da eleição em apreensão

Publicado em 29/09/2026 às 06:00.

Quem desligou o celular na sexta perdeu muita coisa. Trump rejeitou a proposta do Irã para um cessar-fogo e a reabertura do Estreito de Ormuz, rota por onde passa boa parte do petróleo do mundo. 

A OpenAI, dona do ChatGPT, suspendeu o treinamento de seus modelos depois que agentes de inteligência artificial resolveram agir por conta própria em sites do governo americano, um susto para as ações de tecnologia que sustentam Wall Street. 

E Lula baixou uma medida provisória proibindo as bets a nove dias da eleição. O mercado abre a segunda com a missão ingrata de devolver o otimismo que comprou na sexta. E a volatilidade desta semana não vem de um evento só, vem da soma.

O petróleo agora depende do humor de Trump e Teerã
Apesar de ter recusado a proposta, Trump disse que espera voltar a negociar com o Irã ainda nesta semana, e o Catar segue tentando aproximar os dois governos. Os iranianos também querem acordo, desde que os Estados Unidos aceitem suas condições. 

Resultado, o petróleo vai oscilar conforme cada declaração de Washington ou Teerã. Sinal de acordo derruba o barril, ameaça de novos ataques faz o preço disparar. 

O Brent, referência internacional, já voltou para cima de US$ 106, e petróleo caro significa inflação mais alta nos Estados Unidos. Investidor que gosta de previsibilidade vai precisar de outro hobby.

Os juros americanos podem subir novamente

O humor lá fora já não era dos melhores. O rendimento dos títulos de 30 anos do Tesouro americano passou de 5,5%, algo que não se via desde 2004.

Agora o Fed, o banco central dos Estados Unidos, recebe em cinco dias um pacote de dados sobre emprego e inflação que termina na sexta com o payroll, o grande relatório de empregos do país. 

Se o emprego vier forte e o petróleo continuar caro, o Fed vai enxergar risco de a inflação americana não ceder, e isso vira convite para mais uma alta de juros em outubro. 

E juro alto por lá cobra pedágio dos países emergentes. Quando os títulos americanos, considerados os mais seguros do mundo, passam a pagar mais, o investidor tira dinheiro de mercados como o Brasil para aplicar nos Estados Unidos. O dólar sobe, o real perde valor pressionado.

O fim das bets abre um buraco na arrecadação

O fim das bets é popular, mas custa caro. A arrecadação perde algo como R$ 800 milhões por mês, em um Orçamento de 2027 que já pode exigir ajustes de até R$ 42 bilhões. O diesel ganhou mais 30 dias de subsídio. E a inflação deu seu recado na semana passada, com o IPCA-15, prévia do índice oficial, acima de todas as apostas. 

Com emprego e contas públicas saindo nos próximos dias, ninguém no mercado vai ler esses números sem pensar em 2027. É o primeiro ano do próximo governo, seja ele qual for, e já chega com despesas novas e receita a menos. 

Se o investidor desconfiar que a conta não fecha, pede juros maiores para emprestar ao governo, e isso encarece o crédito para empresas e famílias.

Cada notícia sozinha seria administrável, mas o problema é que elas chegam juntas e uma amplifica a outra. Petróleo caro alimenta a inflação americana, que empurra os juros de lá para cima, que pressiona o dólar aqui, justamente na semana em que o Brasil discute quem vai pagar a conta de 2027. 

O investidor que espera uma semana tranquila antes da eleição pode tirar o cavalinho da chuva.

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