Rafa AnthonyTrader de dólar há 10 anos, professor e especialista em Market Profile, uma poderosa ferramenta de análise do mercado

Payroll dá trégua aos juros americanos, enquanto o mercado se protege para a eleição

Publicado em 03/10/2026 às 06:00.

A semana termina com uma ironia. O dado mais temido dos últimos dias acabou sendo o mais tranquilo. O payroll, relatório oficial de empregos dos Estados Unidos, mostrou apenas 29 mil vagas criadas em setembro, menos de um terço do esperado. O desemprego subiu para 4,2% e os salários quase não saíram do lugar.

Para o Fed, o banco central americano, é o argumento que faltava para segurar os juros em outubro.  Na segunda-feira, o medo era justamente o contrário.

O emprego esfriou na hora certa

A explicação é simples. Um mercado de trabalho mais fraco tira pressão sobre o Fed, que vinha sendo empurrado para uma nova alta de juros em outubro. John Williams, presidente do Fed de Nova York, já tinha dito que não havia pressa. O PCE, índice de inflação preferido da casa, veio abaixo do previsto. O payroll completou o roteiro.

Resultado, as apostas para uma pausa em outubro chegam a 77%. Há poucos dias, a alta era tratada praticamente como certa. O mercado mudou de ideia mais vezes nesses cinco dias do que alguém escolhendo o que assistir no streaming sábado à noite.

Os treasuries de 30 anos seguem pressionados

Só que o alívio tem limite. Os títulos de 30 anos do Tesouro americano continuam pagando mais de 5,6%, o maior nível desde 2002. Lorie Logan, presidente do Fed de Dallas, segue defendendo pelo menos mais meio ponto de alta neste ano. O mercado aceitou a trégua no curto prazo, mas não comprou a ideia de que a inflação está resolvida.

E o petróleo ajuda a explicar a desconfiança. O Brent, referência internacional, voltou a superar US$ 100 com novos ataques a navios no Estreito de Ormuz e com Trump dizendo que o Irã ou fecha um acordo, ou deixa de existir. 

Diplomacia por ultimato raramente barateia combustível. Para completar, Washington pressiona a Europa a liberar estoques de diesel. Cada alta no barril é um convite para o Fed reabrir a discussão, e o alívio desta sexta pode não sobreviver ao próximo dado de inflação, que sairá no dia 14 de outubro.

Seja quem for o escolhido domingo, a conta continua alta

No Brasil, a semana foi de investidor atento às pesquisas. O Ibovespa ganhou fôlego, o dólar oscilou ao redor de R$ 5,20 e os juros futuros, que indicam o custo do dinheiro nos próximos anos, preferiram não se empolgar. 

O Datafolha manteve o empate técnico, e até o último debate da TV Globo foi cancelado minutos antes de começar, depois de decisões judiciais conflitantes. Hoje, as mesas de operação reduziram apostas. 

Ninguém quer atravessar o domingo carregando posição grande sem saber o resultado. Bancos e corretoras montaram carteiras para os dois desfechos possíveis, e a Petrobras aparece nas duas listas, o que diz bastante sobre a convicção de cada um. 

E existe um ponto que vale para qualquer cenário. Quem vencer recebe um 2027 com despesas novas, arrecadação menor depois do fim das bets e uma dívida pública que não se acomoda sozinha. A eleição define quem administra o problema. O problema já está contratado. Que venha a segunda-feira.

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