Às vésperas do feriado de 1º de Maio, o mercado financeiro encerra a semana sob tensão, com o petróleo no centro das atenções e o cenário global voltando a ditar o ritmo dos ativos. A semana foi dominada pela disparada do petróleo, com o Brent alcançando US$ 126 por barril. O estopim veio de declarações do presidente americano, que abandonou qualquer tom de conciliação ao sugerir ações militares contra o Irã, afirmando que não haveria mais espaço para ser “bonzinho”. Essa postura, reforçada por relatos de planos para ataques rápidos e intensos, elevou os temores de interrupções no fornecimento global, especialmente em uma região estratégica para o fluxo de energia. O impacto é direto, mais pressão inflacionária e custos elevados, que se refletem tanto nas carteiras dos investidores quanto no bolso do consumidor.
FED mantém cautela e reforça preocupação com energia
Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed) manteve os juros na faixa de 3,50% a 3,75%, conforme decisão do FOMC. O comunicado e a coletiva do presidente do Fed destacaram que os preços de energia ainda não atingiram o pico, e o choque geopolítico no Oriente Médio permanece como um risco central para a inflação e as cadeias de suprimento. Projeções baseadas em ferramentas como a da CME Group indicam que o mercado passou a postergar as expectativas de cortes, reforçando um cenário de juros elevados por mais tempo. Essa postura mais dura reflete nos mercados emergentes, como o Brasil, indicando um interesse estrangeiro por manter o dinheiro lá por mais tempo.
Copom reconhece piora: decisão e comunicado mostram prudência
Por aqui, o Copom reduziu a Selic em 0,25 ponto, para 14,50% ao ano, mas o comunicado trouxe um tom de cautela. As projeções de inflação para o horizonte relevante subiram para 3,5%, acima do centro da meta, impactadas pelo rali do petróleo e pela desancoragem das expectativas, com o Focus estimando IPCA de 4,9% para 2026. O Banco Central sinalizou que o foco agora está não apenas no ritmo, mas na extensão total do ciclo de cortes, reforçando que os próximos passos dependerão da evolução dos preços e do cenário externo. Esse ambiente de incerteza mantém os investidores atentos a cada novo indicador que possa influenciar o caminho da política monetária.
Força no mercado de trabalho
Um dado que chamou atenção foi o resultado do Caged, nosso equivalente ao payroll, que mostrou a criação de 228,2 mil vagas em março, superando as expectativas de 156 mil postos. Isso indica um mercado de trabalho ainda robusto, mesmo com a política monetária restritiva. Embora seja um sinal positivo para a economia, também representa um desafio ao Banco Central, já que a resiliência do emprego pode sustentar pressões inflacionárias. Quando aliado ao déficit recorde do Governo Central (Tesouro, Previdência e BC), de R$ 73,783 bilhões no mesmo mês, o quadro fiscal e trabalhista reforça a complexidade do momento para a condução da política econômica.
Reflexo político: sondagem Datafolha aponta desafios
O cenário político também influenciou a percepção de risco. Sondagens recentes do Datafolha, divulgadas antes do fechamento da semana, indicaram dificuldades para o governo, com queda na popularidade e obstáculos para projetos futuros. A rejeição de Jorge Messias indicado ao STF no Senado, por 34 a 42 votos, expôs fragilidades na articulação do Planalto, levantando dúvidas sobre a capacidade de avançar pautas econômicas importantes. Para o mercado, esse contexto sugere maior cautela, mas pode surgir um prêmio de risco mais elevado nos ativos locais nos próximos pregões.
E assim, o mercado entra no feriado com mais dúvidas do que respostas, especialmente no campo energético, em um cenário onde observar parece, mais uma vez, mais prudente do que agir.