O petróleo despencou quase 5% logo na abertura do mercado internacional hoje, e o motivo é quase cômico na sua simplicidade. Estados Unidos e Irã anunciaram que retomam as negociações hoje à tarde, e isso bastou para o mercado apagar semanas de tensão no Oriente Médio. Trump diz ter suspendido um novo ataque depois de pedidos de Teerã, Riad, Abu Dhabi e Doha. No sábado ainda distribuía ameaças duras sobre acabar com a capacidade militar iraniana. Faz sentido? Não muito, mas o petróleo elaborou muito bem esses últimos acontecimentos.
O mercado muda de humor rápido demais
O detalhe é que nada foi resolvido de fato. Irã e Israel seguem trocando ataques pontuais, o Kuwait levou ofensiva iraniana e ainda há incidentes envolvendo embarcações no Estreito de Ormuz. A Opep+ confirmou aumento de 188 mil barris por dia a partir de setembro e ao mesmo tempo alertou sobre o risco crescente à infraestrutura energética da região. Ou seja, o mesmo grupo que ampliou oferta está preocupado com a possibilidade de essa oferta explodir literalmente. O mercado prefere acreditar na versão otimista porque é sexta-feira dos investidores todo dia, ninguém quer estragar o fim de semana com realidade.
O Copom chega com a resposta definida
Enquanto o petróleo decide se acredita na diplomacia, o Brasil se prepara para a decisão mais previsível do ano. O corte de 0,25 ponto na Selic, para 14%, está precificado com mais de 90% de convicção pela curva de juros e opções de Copom. A dúvida real não é o que o Banco Central vai fazer quarta-feira, é o que ele vai insinuar sobre setembro.
Entre economistas, cresce a leitura de que o BC está otimista demais com a inflação, torcendo pela desancorarem enquanto o mercado ainda desconfia do quadro fiscal, mesmo assim a projeção é de um possível corte de mais 0,5% para setembro. É como se o garçom prometesse uma conta menor se você não olhar o cardápio de novo.
O Fed parece confiar menos no painel
O Fed vive um clima de crise de identidade, e vazou que Kevin Warsh, presidente do Fed, cogitou reduzir o número de reuniões anuais do comitê, hoje em oito, ainda sem data definida para a mudança.
A ideia parece técnica, mas carrega peso simbólico. Menos reuniões significam menos janelas para ajustar juros, o que em tese daria mais previsibilidade, mas também reduz a capacidade do Fed de reagir rápido a choques, justamente num momento em que geopolítica e inflação seguem imprevisíveis. É como um piloto decidindo olhar o painel com menos frequência porque confia mais no destino do que nos instrumentos.
E o teste de confiança chega rápido, o payroll de julho sai na sexta e vai dizer se essa tranquilidade toda faz sentido. Se os dados confirmarem que o mercado de trabalho americano está de fato perdendo fôlego, como sugerem os números recentes, o tom manso de Warsh ganha respaldo. Se vier forte, o Fed descobre que reduzir a frequência de olhar o painel não muda o fato de que o avião continua em zona de turbulência.
O Iene japonês precisou de ajuda dobrada
Japão e Estados Unidos fizeram a primeira intervenção cambial dupla desde 2011 para conter o iene, que patinava em mínimas de 40 anos. Scott Bessent, secretário do Tesouro americano, foi flagrado com uma lista de tarefas dizendo para comprar iene, o que tira qualquer sofisticação da operação e devolve a sensação de que política monetária às vezes é só um post-it com prioridades. O real, de quebra, fechou julho com alta de 1,8%, ajudado pelo próprio petróleo que hoje desaba.
Balanços em ritmo acelerado
Na B3 a temporada de balanços acelera com Itaú, Bradesco e Petrobras carregando a semana, enquanto o Ibovespa flertou com os 178 mil pontos após um pregão de sexta-feira atrasado por pane técnica, não por hackers, garantiu a B3.
No fim, a semana promete Copom certo, payroll incerto e petróleo instável, e o mercado vai tratar as três coisas como se fossem igualmente previsíveis. Não são.