O mercado volta do feriado prolongado e encontra a casa bagunçada. O payroll já tinha dado seu recado na sexta, mas a folga não durou nem 72 horas antes de o petróleo e a política brasileira decidirem competir por atenção.
O Brent voltou a rondar os US$ 100, a Quaest empatou Lula e Flávio Bolsonaro pela primeira vez em números, e o interessante é que nenhum dos dois choques é passageiro. São dois riscos que se alimentam, um empurra prêmio de inflação, o outro empurra prêmio de incerteza fiscal, e o investidor vai ter que precificar os dois ao mesmo tempo.
O Petróleo decidiu se meter na conversa do Fed
A escalada entre Estados Unidos e Irã é real. As travessias por Ormuz, corredor por onde passa boa parte do petróleo mundial, caíram quase 30% na semana, e cada ataque a petroleiro reduz um pouco mais a margem de segurança de quem precificava petróleo estável.
O ponto que o mercado ainda não quer encarar é que essa alta chega no pior momento possível para o Fed, banco central americano, que já vinha pressionado pelo payroll forte e pelas apostas de mais de 60% para alta de juros em setembro.
Se o CPI, índice de inflação ao consumidor americano, confirmar essa pressão na sexta, a ala hawkish do Fed sai fortalecida, e o mercado que já estava caro em ações vai ter que digerir juro americano mais alto por mais tempo.
O Banco Central Europeu também deve subir os juros na quinta, para 2,50%, num movimento que a maioria dos analistas já dava como encerrado. Se confirmar, o recado é claro, os bancos centrais desenvolvidos ainda não terminaram de lutar contra a inflação, mesmo com a economia global mostrando sinais de fadiga.
A crise no STF e o trade eleitoral
A crise no STF, Supremo Tribunal Federal, escolheu a pior semana possível para virar julgamento público, justo quando a Quaest mostra que a eleição está tecnicamente decidida no cara ou coroa.
O caso das mensagens entre Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro foi liberado para o plenário, e isso significa que cada ministro vai precisar se posicionar, talvez sem a proteção do anonimato dos bastidores. Minha leitura é que isso pesa mais contra o governo do que contra a oposição, porque instabilidade institucional é sempre lida pelo mercado como risco do status quo, e quem está no poder é quem carrega esse ônus.
O trade eleitoral, aposta de que uma corrida mais disputada aumenta a chance de compromisso fiscal mais firme adiante, só funciona enquanto o mercado acredita que a disputa vai se resolver dentro das regras do jogo. Toda vez que o STF vira notícia por briga interna, essa crença fica um pouco mais frágil, e é aí que o rali dos ativos brasileiros vira aposta.
Os investidores adoram dizer que o mercado precifica tudo. Falta alguém avisar que confiança institucional não tem gráfico, e é justamente isso que está sendo negociado essa semana.