A semana fechou com o Brent em cem dólares e o mercado sem paciência para mais nenhuma boa notícia. Foram quatro dias de escalada contínua entre Estados Unidos e Irã, e cada um trouxe um agravante novo. Na terça, ainda era o Estreito de Ormuz sozinho segurando as atenções, com o petróleo em torno de US$ 89 e o dólar cedendo para R$ 5,08 puxado pelo carry trade.
Na quarta, os houthis ampliaram o jogo ao anunciar bloqueio marítimo à Arábia Saudita, o Brent passou de US$ 91 dólares e o real seguiu descolado da tensão, fechando em R$ 5,07. Na quinta, a conta ficou mais séria, o barril bateu 95 dólares depois de dois petroleiros sauditas serem atacados, e o câmbio começou a devolver parte do otimismo. Nesta sexta, o salto de mais de 6% em um único pregão levou o petróleo a US$ 100, e aí sim o mercado local perdeu o sangue frio de vez, com o dólar voltando para R$ 5,08 e o Ibovespa cedendo os 177 mil pontos.
Os bancos centrais falaram a mesma língua
O detalhe que ninguém tinha no radar até quinta era o quanto o petróleo passaria a comandar os bancos centrais dos dois lados do Atlântico. Janet Yellen, que foi secretária do Tesouro dos Estados Unidos e hoje circula como uma das vozes mais ouvidas do mercado, disse na Expert XP que o Federal Reserve, o banco central americano, está muito disposto a subir juros se a inflação de energia continuar avançando. O CME Group, a bolsa de Chicago que mede “as apostas” dos investidores sobre o rumo dos juros americanos, já precifica mais de 80% de chance de alta em setembro.
Do outro lado do oceano, Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, manteve a taxa parada em 2,25%, mas revelou que alguns dirigentes já defendiam alta nesta reunião. O banco holandês ING resumiu bem ao dizer que o BCE praticamente contratou o aperto de setembro.
Em três dias, o mercado saiu de discutir corte de juros nos dois lados do oceano para discutir alta nos dois lados do oceano.
O Copom perdeu a janela de setembro
No Brasil, o efeito apareceu direto na curva de juros futuros, o termômetro das expectativas para a Selic. A aposta em um corte em agosto sobreviveu, mas virou consenso de mercado que ele deve ser o último, caso o petróleo não dê trégua.
O tarifaço escolheu a pior semana possível
Enquanto isso, os Estados Unidos confirmaram a tarifa adicional de 12,5% sobre o Brasil, que somada aos 25% já em vigor leva a taxação a 37,5% para grande parte das exportações.
O governo brasileiro reagiu chamando a medida de arbitrária e acionou a Lei da Reciprocidade, mecanismo que permite responder com tarifas equivalentes contra o país que taxou o Brasil. O timing coincidiu exatamente com o dia em que o petróleo estourou os cem dólares.
A Vale resolveu a própria novela
No meio disso tudo, a Vale fechou a semana com boas notícias. Produção de minério em alta de 0,8%, cobre com preço realizado 56,5% maior, e a eleição de Manuel de Sousa Oliveira, o Ollie, para a presidência do conselho de administração encerrou a disputa interna que vinha desgastando a companhia. Os bons olhos do mercado fizeram as ações saltarem quase 4% ontem.
Wall Street cobrou a conta da IA
O contraponto ficou por conta das big techs americanas. Alphabet, dona do Google, caiu mais de 7%, e Tesla despencou 14,5% após balanços que decepcionaram no fluxo de caixa, sinal de que o mercado está menos disposto a financiar promessas de inteligência artificial sem ver o dinheiro voltando.
Essa foi a semana em que o petróleo foi o principal driver do mercado. Enquanto o Brent permanecer próximo de US$ 100, inflação, juros, câmbio e bolsa continuarão olhando para o Oriente Médio antes de olhar para qualquer indicador econômico.