O fim de semana escancarou dois pesos e duas medidas na política comercial de Trump. Ao Canadá, ele aplicou tarifa de 50% sobre vinte bilhões de dólares em produtos, depois que o premiê canadense Mark Carney o acusou de mudar as regras na última hora e prometeu retaliar. Ao Brasil, tratamento oposto. Lula telefonou, a conversa durou mais de uma hora, e Trump reabriu um canal que Brasília considerava fechado desde a sobretaxa de até 37,5% sobre produtos brasileiros. A diferença não parece acaso. O Brasil tem eleição em outubro, e hostilizar Lula agora só ajudaria o presidente na disputa.
Ninguém em Brasília aposta em reversão antes de outubro
Apesar do telefonema cordial, o governo brasileiro segue realista. O USTR, órgão americano que negocia acordos comerciais, telefonou para o Ministério do Desenvolvimento, e uma reunião deve ocorrer nesta semana, mas a leitura interna é que avanço concreto só sai depois da eleição. Brasília ganhou menos hostilidade retórica, já que Trump nem tocou na lisura do processo eleitoral durante a ligação.
Eleições permanecem sem mudanças
O Datafolha, instituto de pesquisa eleitoral, divulgou na sexta números que decepcionaram quem esperava avanço de Flávio Bolsonaro por causa das denúncias envolvendo Lulinha, apelido do filho de Lula, Fábio Luís. Lula caiu apenas um ponto no segundo turno, para 47%, contra 43% de Flávio, vantagem dentro da margem de erro mas com viés de liderança. As investigações da Polícia Federal sobre negócios intermediados por Fábio Luís seguem rendendo manchete, mas o eleitorado já parece ter precificado o barulho.
Nvidia carrega o mercado nas costas essa semana
Quarta traz o balanço da Nvidia, maior fabricante de chips usados em inteligência artificial, num momento em que o mercado já não aceita crescimento sem lucro visível em IA. A Bloomberg revelou que grandes clientes da empresa foram avisados de reajustes acima de 15% nos servidores com esses chips, reflexo do custo mais alto de memória. Mostra se a demanda aguenta pagar mais caro ou se a euforia com IA encontra limite.
Por aqui, a agenda segue movimentada
Por aqui quem vai calibrar essa aposta é a agenda doméstica da semana, com o IPCA-15, prévia da inflação, na quarta, a Pnad, pesquisa de desemprego, na quinta, e o Caged, registro de contratações e demissões formais, na sexta. Se a desaceleração se confirmar nos três, um corte de juros em setembro virá com certeza.
Assim, temos pela frente uma semana guiada pelos indicadores econômicos, mas com os acontecimentos políticos capazes de mudar o humor dos investidores a qualquer momento.