O dia dos professores é um feriado, dia de folga: “uhuu!”, diriam alunos e professores. Políticos do lado A e B iriam vangloriar ou demonizar essa mesma data. Alguns diriam: “Professor é a profissão que forma todos os outros profissionais” ou “Todo dia é dia do professor! Desnecessária essa data” ou “Professor não trabalha! Só mais um dia de folga”.
Bom, como professor de Direito, tenho como tema a Democracia. Ela pressupõe exatamente a convivência dos diferentes, então não vou afirmar que a frase A, B ou C está errada. Mas posso usá-la para tratar de um tema que comumente é tratado superficialmente e fazer aquilo que amo e que me preparei pra fazer: ensinar!
Datas comemorativas não existem apenas para dar folga. No Dia da Mulher, por exemplo, sempre aparece alguém dizendo: “Bobagem! Todo dia é dia da mulher”. Em uma sociedade polarizada, logo começa o “combate”: vamos criar o dia do homem, o dia do homem heterossexual... Briga e mais briga. Nas redes, a comunicação vira animosidade. Aparentemente, o ódio viraliza mais e agrada ao algoritmo.
Mas criar uma data específica não é sobre briga, esquerda ou direita. É sobre reflexão.
Fui para a faculdade convencido de que não haveria ninguém. Depois de um feriado segunda e outro quinta e, no meio, uma quarta à noite concorrendo com Sul-Americana e Libertadores, imaginei que não encontraria uma vivalma.
Entrei em sala e havia uns 20 alunos, de uma turma de 52. Pensei: “Opa! Tenho público!”. O ânimo subiu. Aí vieram: “Prof, trouxe a prova?”, “Prof, PRECISO de ponto!”, desanimei. “Prof, você ama quando seus alunos vão mal! Ditadura! Democraticamente queremos mais pontos”. Esse último até me animou. Pelo menos tentou argumentar.
Respondi: “Democracia é vontade da maioria preservados os direitos da minoria. Não vou dar pontos só porque a maioria quer!”. O sorriso volta ao rosto, mas, ao mesmo tempo, penso: “Só vieram pela prova. Será que lecionar ainda tem sentido?!”
Começo a aula. Tema tranquilo em “terra brasilis”: mudança da Constituição. Penso em repetir uma frase que digo há anos: “Todo mundo, de direita ou esquerda, quer mudar a Constituição. Quando alguém falar nisso, fiquem atentos. A Constituição limita tudo e todos”. Mas o tema está no “olho do furacão”. Penso nos “questionamentos”: “Esquerdista!”, “Direitista!”, “Fascista!”. Reformulo. A polarização dificulta a vida do professor. Ao mesmo tempo, repensar em como explicar me anima.
O desânimo bate forte. Pergunto: “Continuamos? Todo mundo foi embora”.
Recebo: “Todo mundo, prof?!”.
Repreensão assimilada. Ele tinha razão.
Continuamos. Um aluno pergunta sobre voto universal. Indignado com a impossibilidade de exigir que o candidato tenha curso superior. Iniciamos um debate. Uma aluna conta que ficou praticamente um ano sem aula de matemática na escola porque a professora precisava cuidar da mãe com câncer e não havia substituto. Conta também que dormia no horário por falta de professor.
Compartilho que sempre estudei em escola particular, mas meus pais não. Conto que minha mãe foi escrava moderna, adotada para ser doméstica.
Uso os casos para explicar que a universalidade do voto garante que possam ser eleitas pessoas com pontos de vistas distintos, diante de realidades distintas e que isso era essencial. Exigir que um candidato tenha curso superior impediria exatamente isso. Logo, criar esse requisito seria sim inconstitucional.
A democracia é a convivência dos diferentes: o dela, de quem viveu uma escola pública; o da minha mãe, que sofreu algo que eu não sofri; o meu, professor cansado e, ao mesmo tempo, animado.
No fim, saí profundamente animado. Cheguei em casa e contei tudo para minha família diversa (esposa, gata, cachorra e plantinhas). Refleti sobre o meu papel: ser professor é ajudar os meus alunos nas suas caminhadas (quais sejam). Se restarem 7 alunos em sala, são 7 pessoas, 7 histórias e 7 sonhos diferentes.
É exatamente por isso que ainda estou lá.
*Mestre e especialista em Direito. Professor da Nova Faculdade, Promove, Kennedy, Universidade Santa Úrsula e Faculdade Universo. Professor do cursinho preparatório para OAB “Ter OAB”. Assessor da Ouvidoria de Prevenção e Combate à Corrupção da Ouvidoria Geral do Estado. Professor online nas horas vagas: @profviniciusgomes (instagram, YouTube, Facebook, TikTok, Bluesky e X). Além disso, aos oabeiros, me acompanhem porque “Te ajudo a fazer 70% na OAB estudando 50% menos!”