Vinícius GomesMestre e especialista em Direito. Professor da Nova Faculdade, Promove, Kennedy, Universidade Santa Úrsula e Faculdade Universo. Professor do cursinho preparatório para OAB “Ter OAB”. @profviniciusgomes (instagram, YouTube, Facebook, TikTok, Bluesky e X)

Dia dos professores: Uhuuuu!

Publicado em 15/10/2026 às 18:20.

O dia dos professores é um feriado, dia de folga: “uhuu!”, diriam alunos e professores. Políticos do lado A e B iriam vangloriar ou demonizar essa mesma data. Alguns diriam: “Professor é a profissão que forma todos os outros profissionais” ou “Todo dia é dia do professor! Desnecessária essa data” ou “Professor não trabalha! Só mais um dia de folga”.

Bom, como professor de Direito, tenho como tema a Democracia. Ela pressupõe exatamente a convivência dos diferentes, então não vou afirmar que a frase A, B ou C está errada. Mas posso usá-la para tratar de um tema que comumente é tratado superficialmente e fazer aquilo que amo e que me preparei pra fazer: ensinar!

Datas comemorativas não existem apenas para dar folga. No Dia da Mulher, por exemplo, sempre aparece alguém dizendo: “Bobagem! Todo dia é dia da mulher”. Em uma sociedade polarizada, logo começa o “combate”: vamos criar o dia do homem, o dia do homem heterossexual... Briga e mais briga. Nas redes, a comunicação vira animosidade. Aparentemente, o ódio viraliza mais e agrada ao algoritmo.

Mas criar uma data específica não é sobre briga, esquerda ou direita. É sobre reflexão.

Ao criar o Dia da Mulher não se afirma que a mulher só tenha aquela data, nem se busca criar privilégios ou favorecer “um lado”. A ideia é outra: ter um momento para refletir sobre a realidade (ex: assédio, equiparação remuneratória, etc). Com o Dia dos Professores, a lógica deve ser a mesma.

Fui para a faculdade convencido de que não haveria ninguém. Depois de um feriado segunda e outro quinta e, no meio, uma quarta à noite concorrendo com Sul-Americana e Libertadores, imaginei que não encontraria uma vivalma.

Entrei em sala e havia uns 20 alunos, de uma turma de 52. Pensei: “Opa! Tenho público!”. O ânimo subiu. Aí vieram: “Prof, trouxe a prova?”, “Prof, PRECISO de ponto!”, desanimei. “Prof, você ama quando seus alunos vão mal! Ditadura! Democraticamente queremos mais pontos”. Esse último até me animou. Pelo menos tentou argumentar.

Respondi: “Democracia é vontade da maioria preservados os direitos da minoria. Não vou dar pontos só porque a maioria quer!”. O sorriso volta ao rosto, mas, ao mesmo tempo, penso: “Só vieram pela prova. Será que lecionar ainda tem sentido?!” 

Começo a aula. Tema tranquilo em “terra brasilis”: mudança da Constituição. Penso em repetir uma frase que digo há anos: “Todo mundo, de direita ou esquerda, quer mudar a Constituição. Quando alguém falar nisso, fiquem atentos. A Constituição limita tudo e todos”. Mas o tema está no “olho do furacão”. Penso nos “questionamentos”: “Esquerdista!”, “Direitista!”, “Fascista!”. Reformulo. A polarização dificulta a vida do professor. Ao mesmo tempo, repensar em como explicar me anima.

A aula continua. Sinto-me um Mario Bros desviando de armadilhas. Chega o intervalo. Quando volto, restam sete alunos.

O desânimo bate forte. Pergunto: “Continuamos? Todo mundo foi embora”.

Recebo: “Todo mundo, prof?!”.

Repreensão assimilada. Ele tinha razão.

Continuamos. Um aluno pergunta sobre voto universal. Indignado com a impossibilidade de exigir que o candidato tenha curso superior. Iniciamos um debate. Uma aluna conta que ficou praticamente um ano sem aula de matemática na escola porque a professora precisava cuidar da mãe com câncer e não havia substituto. Conta também que dormia no horário por falta de professor.

Depois, me diz que é a primeira da família a cursar faculdade. Mostra uma foto de sua biblioteca. Adora ler. Alguns livros vieram de doações; outros, do lixo.

Compartilho que sempre estudei em escola particular, mas meus pais não. Conto que minha mãe foi escrava moderna, adotada para ser doméstica.

Uso os casos para explicar que a universalidade do voto garante que possam ser eleitas pessoas com pontos de vistas distintos, diante de realidades distintas e que isso era essencial. Exigir que um candidato tenha curso superior impediria exatamente isso. Logo, criar esse requisito seria sim inconstitucional.

A democracia é a convivência dos diferentes: o dela, de quem viveu uma escola pública; o da minha mãe, que sofreu algo que eu não sofri; o meu, professor cansado e, ao mesmo tempo, animado.

No fim, saí profundamente animado. Cheguei em casa e contei tudo para minha família diversa (esposa, gata, cachorra e plantinhas). Refleti sobre o meu papel: ser professor é ajudar os meus alunos nas suas caminhadas (quais sejam). Se restarem 7 alunos em sala, são 7 pessoas, 7 histórias e 7 sonhos diferentes.

É exatamente por isso que ainda estou lá.

*Mestre e especialista em Direito. Professor da Nova Faculdade, Promove, Kennedy, Universidade Santa Úrsula e Faculdade Universo. Professor do cursinho preparatório para OAB “Ter OAB”. Assessor da Ouvidoria de Prevenção e Combate à Corrupção da Ouvidoria Geral do Estado. Professor online nas horas vagas: @profviniciusgomes (instagram, YouTube, Facebook, TikTok, Bluesky e X). Além disso, aos oabeiros, me acompanhem porque “Te ajudo a fazer 70% na OAB estudando 50% menos!”

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