Em princípio, importante esclarecer o significado do termo cristianização. Cristianização, na política brasileira, é a situação em que um candidato em uma eleição perde o apoio das principais lideranças e parlamentares do seu partido político, que passa a apoiar outro nome com mais chances de vitória.
A palavra é derivada de Cristiano Machado, que se candidatou à Presidência da República em 1950 pelo Partido Social Democrático (PSD). Ao longo da campanha eleitoral, Cristiano viu-se abandonado pelos principais líderes do seu próprio partido, que passaram a defender a candidatura de Getúlio Vargas, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), que acabou vencendo a eleição. Resumindo: cristianização na política significa traição eleitoral, abandono por parlamentares e principais lideranças do candidato oficial do respectivo partido para apoiar outro nome.
Apesar da clássica frase de Leonel Brizola de que “a política ama a traição e odeia o traidor”, além do fenômeno da cristianização ser muito comum em todas as eleições, os traidores não saem como odiados no findar do processo. Muitas das vezes embarcam em canoa vitoriosa e têm benefícios do poder.
Algumas premissas básicas são importantes para entender o processo de cristianização, a saber: não são consideradas e nem analisadas em candidaturas nanicas de partidos pequenos e com pouca expressão, tipo que estão no processo eleitoral apenas para cumprir tabela ou marcar posição. Não ocorrem em candidaturas que lideram pesquisas ou têm forte possibilidade de crescimento, pois no período eleitoral a tal perspectiva de poder atrai apoiadores e adesões. Estas candidaturas, ao contrário, potencializam e atraem traições de outros partidos.
Importante frisar também que em uma eleição majoritária aqueles que se apresentam suas candidaturas como projetos pessoais ou apoiadas apenas por parte do partido são possíveis vítimas de forte cristianização interna.
Nesse diapasão, seguramente teremos cristianizações nas eleições deste ano para governador de Minas. O mesmo PSD (repaginado) de Cristiano Machado pode ser vítima desse processo. Vide desde o início com a filiação de Mateus Simões, com poucos parlamentares presentes e falta de união partidária com sua candidatura. Até porque tem o partido, no Estado, importantes quadros ligados ao senador Rodrigo Pacheco e ao ministro Alexandre Silveira, opositores declarados à candidatura de Mateus ao governo.
E como as lideranças políticas têm faro para o poder, pesquisas são fundamentais para ditarem para onde o vento sopra. E a candidatura de Mateus, não obstante a forte máquina governamental a seu favor com a brutal exposição, não consegue entusiasmar a população e chegar aos dois dígitos. A permanecer assim até final de abril será cristianizado.
Outros dois casos possíveis de cristianização merecem citação. A candidatura de Gabriel Azevedo pelo MDB também surgiu com pequena coesão partidária. Gabriel atua bem nas redes sociais, é nome muito qualificado, capaz de aprofundar em análises e propostas de vários temas que estão na ordem do dia no Estado. MDB é um partido grande, bom recurso do fundo partidário e boa capilaridade no interior. Mas os resultados das pesquisas eleitorais podem ser um caminho para seu processo de cristianização.
E ainda o nome que o PT definir apoiar para o governo também tem grande potencial de cristianização. Isso porque o partido errou ao não trabalhar um nome competitivo, que mobilizasse as bases partidárias e animasse as lideranças do seu campo político rumo à vitória. Assim sendo, se definirem por algum nome petista ou alguém com proximidade de seu campo ideológico, a cristianização virá pela necessidade de apoio a outro nome não oficial que seja capaz de derrotar o candidato bolsonarista, seja do PL ou apoiado por este partido.
Como exemplo a eleição para prefeito de BH em 2024, em que eleitores do campo da esquerda migraram ainda no primeiro turno do candidato do PT Rogério Corrêa, que teve míseros 4,37%, para Fuad Noman, que fechou com 26,54% e venceu o segundo turno contra o bolsonarista Bruno Engler.
Próximas semanas decisivas para definição de candidaturas e quadro mais claro sobre possíveis cristianizações eleitorais.