O que começa mal tende a acabar na mesma linha se não for corrigido a tempo. O erro mais elementar do desfile com enredo sobre Lula foi misturar carnaval com eleição. Quando a manifestação é espontânea dos que gostam desta festa, sem problema. Exemplo: fantasias e músicas. Este o limite. Além disso, é um campo minado e um risco perigoso de assumir.
E assim foi com a decisão da escola de samba Acadêmicos de Niterói, liderada pelo Sr. Pipico, seu presidente de honra e vereador do PT naquela cidade, de homenagear Lula. Resultado final: escola rebaixada e uma enorme dor de cabeça para Lula e seus estrategistas pelo brutal efeito negativo que a mesma causou.
Para os mais desavisados, distraídos e irresponsáveis, a decisão sobre o enredo e alas da escola parecia uma estratégia perfeita de marketing político na maior festa do país a poucos meses das eleições.
O samba remetia a jingle eleitoral, com direito ao tradicional “olê, olê, olê, olá, Lula, Lula”, e versos com o número do PT, enfatizando em suas alegorias as principais bandeiras de campanha do petista e ataques aos seus opositores.
Fim de desfile e efeitos complexos em duas áreas: jurídica e política. Quanto à primeira, o problema caiu no colo do TSE. Será que o mesmo rigor do tribunal que proibiu em 2022 a campanha de Bolsonaro divulgar fotos de Lula com o ditador Maduro da Venezuela e definiu pela inelegibilidade de Bolsonaro, vai decidir se o desfile, patrocinado por recurso público, foi apenas manifestação cultural ou propaganda eleitoral antecipada? Esta decisão será balizadora para o comportamento dos demais candidatos nas eleições de 2026 país afora.
E quanto ao aspecto político, interessante o que dispôs a jornalista Roseann Kennedy do Estadão: “o presidente Lula ficou com pelo menos cinco estragos políticos para resolver: Implodiu pontes com os evangélicos (o desfile os colocou como enlatados em conserva), empurrou o agronegócio para a oposição, gerou mais um mal-estar com ala do MDB (a escola levou à avenida o ex-presidente Michel Temer estilizado roubando a faixa da ex-presidente Dilma Rousseff) e deu margem para seu adversário Flávio Bolsonaro ganhar discurso e questionar o PT no Tribunal Superior Eleitoral”.
E, ainda, fez Lula ser novamente alvo de uma enxurrada de menções negativas nas redes sociais. Levantamento da Ativaweb DataLab “mostra que foram negativas 54,7% das menções feitas a Lula no Facebook, Instagram, X e TikTok, de sexta-feira, 13, até esta quarta-feira, 18”.
A trend “Família na Lata”, tema de uma das alas do desfile, com críticas às famílias conservadoras, virou o principal assunto na terça-feira de carnaval. A Frente Parlamentar Católica e a Frente Parlamentar Evangélica no Congresso ressaltaram que o desfile em homenagem a Lula desrespeitou a fé cristã e que acionarão o Judiciário e órgãos de controle.
A OAB RJ manifestou em nota que “a liberdade religiosa, consagrada como direito fundamental, constitui pilar essencial do Estado Democrático de Direito e encontra proteção não apenas na Constituição Federal, mas também em tratados internacionais de direitos humanos dos quais o Brasil é signatário, como o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (art. 18). Qualquer conduta que implique intolerância ou discriminação religiosa representa afronta direta à ordem constitucional e aos compromissos internacionais assumidos pelo país”.
Eleição não se ganha ou se perde da noite para o dia. É uma sucessão de fatos que proporcionam o resultado final. Ainda estamos longe do pleito, e no meio tem Copa do Mundo que canaliza atenção de todos os brasileiros. O cenário eleitoral ainda não está totalmente definido. Definições e ajustes a serem feitos pelas principais candidaturas. Mas indubitavelmente foi uma tremenda bola fora para o campo lulista essa confusão do desfile e um belo presente de Natal atrasado para a oposição.
A aguardar se no período da Copa não aparece alguma “mente iluminada” petista propondo trocar o amarelo da camisa da seleção pelo vermelho!