
À medida que as eleições se aproximam, um movimento chama a atenção. Depois de anos enfrentando enorme resistência entre os evangélicos, o Partido dos Trabalhadores decidiu divulgar uma carta direcionada aos cristãos, afirmando que seus governos sempre respeitaram as igrejas e reconhecendo a importância da fé para a sociedade brasileira. O documento busca aproximar o presidente Lula de um segmento que representa cerca de um terço da população brasileira.
Como cristão evangélico, respeito toda iniciativa de diálogo. A democracia pressupõe exatamente isso: conversar com todos. O problema não está na carta. O problema está na coerência entre o discurso e a prática.
Os evangélicos brasileiros não esperam privilégios do Estado. Esperam respeito às convicções que professam. E é justamente nesse ponto que existe um abismo entre o discurso eleitoral e as posições historicamente defendidas por boa parte do campo político representado pelo PT.
É impossível ignorar que diversos setores da esquerda apoiam a ampliação do acesso ao aborto, defendem a descriminalização das drogas, promovem políticas inspiradas na chamada agenda progressista e sustentam propostas relacionadas à identidade de gênero que entram em conflito com aquilo que milhões de cristãos compreendem como princípios bíblicos.
Ainda que a carta divulgada pelo partido tenha evitado abordar esses temas, eles continuam presentes no debate político nacional e explicam boa parte da desconfiança do eleitorado evangélico.
Outro ponto que causa preocupação é o ambiente de crescente polarização em torno da liberdade de expressão. Muitos cristãos enxergam, com apreensão, decisões e iniciativas que, em sua avaliação, ampliam mecanismos de censura e restringem o livre debate de ideias. A defesa da verdade nunca combina com o silenciamento de quem pensa diferente.
A carta do PT cita princípios cristãos como justiça, solidariedade e cuidado com os mais vulneráveis. Concordo plenamente que esses valores fazem parte do Evangelho. Mas o Evangelho também fala sobre a defesa da vida, da família, da liberdade religiosa, da responsabilidade individual e da verdade. Não é possível selecionar apenas os princípios que interessam ao discurso político do momento.
A tentativa de aproximação ocorre justamente em um ano eleitoral. Isso faz com que muitos enxerguem o documento muito mais como estratégia política do que como mudança de convicções. Afinal, se houve realmente uma transformação de entendimento, ela precisará ser demonstrada por atitudes concretas e não apenas por uma carta cuidadosamente redigida.
O povo evangélico amadureceu politicamente. Não vota apenas por simpatia, slogans ou gestos simbólicos. Observa a trajetória, acompanha as decisões e compara discursos com ações.
O respeito às igrejas não se mede pelo conteúdo de um documento divulgado em período eleitoral. Mede-se pela coerência entre aquilo que se promete e aquilo que se pratica.
E, para quem professa a fé cristã, coerência continua sendo uma das maiores virtudes.