Irlan MeloAdvogado, teólogo, professor universitário e vereador de BH eleito para seu segundo mandato como o 8° vereador mais votado de BH

Carnaval ou campanha? O que aconteceu na Sapucaí em ano de eleição

Publicado em 23/02/2026 às 06:05.


O Carnaval sempre trouxe desafios para as cidades: segurança pública, sobrecarga na saúde, depredação do patrimônio, conflito entre quem quer festa e quem quer descanso. Isso é conhecido. O que me chamou atenção este ano, porém, foi algo ainda mais grave: a politização escancarada da avenida em pleno ano eleitoral.

Em 2022, vimos a campanha do então presidente Jair Messias Bolsonaro ser punida diversas vezes pelo Tribunal Superior Eleitoral e pelo Supremo Tribunal Federal sob o argumento de propaganda irregular ou antecipada. As regras eram rígidas. A interpretação, severa. A fiscalização, implacável.

Agora, em 2026, assistimos a uma escola de samba homenagear o presidente Luiz Inácio Lula da Silva com um samba-enredo que mais parecia um jingle eleitoral. Não foi uma referência sutil ou um recorte histórico distante. Foi exaltação direta, em alto e bom som, na maior vitrine cultural do país.

Eu respeito a liberdade artística. Ela é pilar da democracia. Mas liberdade artística não pode servir de escudo para propaganda política antecipada, ainda mais quando há recursos públicos envolvidos. Porque, sim, há dinheiro público financiando parte desse espetáculo. Dinheiro do contribuinte.

O artigo 36 da Lei nº 9.504/97 estabelece que a propaganda eleitoral somente é permitida após 15 de agosto do ano da eleição. A jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral já firmou entendimento de que não é necessário pedido explícito de voto para caracterizar propaganda antecipada. Basta promoção pessoal com potencial de influenciar o eleitorado.

Não se trata apenas de preferência ideológica. Trata-se de coerência institucional. Se a regra vale para um lado, precisa valer para o outro. Caso contrário, deixamos de falar em justiça e passamos a falar em conveniência.

Também me preocupa quando manifestações culturais ultrapassam o debate político e partem para ataques a valores religiosos e à família. O Brasil é plural, mas pluralidade não é sinônimo de desrespeito. Não se combate intolerância com mais intolerância.

No fim das contas, a escola não venceu. Ficou em último lugar. Não sou de acompanhar resultados de Carnaval, mas confesso que o desfecho teve um certo simbolismo. Não chamo de providência. Chamo de recado.

Ainda assim, o objetivo foi alcançado: projeção nacional, mídia espontânea e a mensagem política lançada antes do tempo legal. Isso deveria preocupar qualquer cidadão, independentemente de lado.

Democracia exige regras claras e aplicação igualitária da lei. Sem isso, o que temos não é justiça, é privilégio. E privilégio, em política, sempre cobra um preço nas urnas. Outubro de 2026 dirá.

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