Irlan MeloAdvogado, teólogo, professor universitário e vereador de BH eleito para seu segundo mandato como o 8° vereador mais votado de BH

Clezão: uma rua para lembrar, uma história para refletir

Publicado em 08/06/2026 às 06:00.


Nesta semana, a Câmara Municipal de Belo Horizonte deu um importante passo para preservar uma história que muitos gostariam de apagar. Foi aprovado o projeto que denomina a Rua A4, no bairro Betânia, como Rua Cleriston Pereira da Cunha, eternizando a memória de um brasileiro que, para mim e para milhões de pessoas, se tornou um símbolo de coragem, convicção e resistência.

Conhecido nacionalmente como Clezão, Cleriston Pereira da Cunha morreu enquanto estava sob custódia do Estado. Preso preventivamente em decorrência dos acontecimentos de 8 de janeiro, jamais recebeu uma condenação definitiva. Ainda assim, perdeu o bem mais precioso que um ser humano possui: a própria vida. Sua morte gerou comoção em todo o país e levantou questionamentos que continuam ecoando na consciência de muitos brasileiros.

Apresentei esse projeto porque acredito que as cidades devem preservar a memória de pessoas que marcaram a história. E Clezão marcou. Não por ocupar um cargo público ou por possuir riqueza e influência. Marcou porque não se omitiu. Marcou porque acreditava em suas convicções. Marcou porque participou ativamente do debate político de seu tempo. E, sobretudo, marcou porque sua história se transformou em um símbolo dos excessos que muitos brasileiros enxergam nas perseguições políticas e judiciais dos últimos anos.

Alguns setores da esquerda se posicionaram contra a homenagem. Não me surpreende. O mesmo grupo que frequentemente celebra personagens ligados a revoluções violentas, ditaduras e regimes autoritários parece incapaz de reconhecer a trajetória de um cidadão comum, pai de família, trabalhador e sem condenação transitada em julgado.

O curioso é que aqueles que hoje criticam a homenagem costumam defender a preservação da memória histórica quando ela favorece suas narrativas ideológicas. Quando a homenagem é destinada a alguém que representa valores conservadores, patrióticos ou alinhados à direita, a reação é completamente diferente.

A aprovação do projeto na Câmara demonstra que muitos vereadores compreenderam a importância desse gesto. Não se trata apenas de dar nome a uma rua. Trata-se de registrar para as futuras gerações que houve um período da história brasileira marcado por profundas divisões, tensões institucionais e debates sobre liberdade, justiça e garantias individuais.

A homenagem a Clezão é também um convite à reflexão. Um país verdadeiramente democrático não deve temer a memória. Pelo contrário, deve preservá-la, ainda que ela incomode alguns.

Seguirei defendendo essa homenagem até sua conclusão definitiva. Faço isso por respeito à família de Clezão, por respeito à verdade como eu a compreendo e por respeito a todos os brasileiros que acreditam que a justiça deve servir ao cidadão, e não ao poder.

Que a futura Rua Cleriston Pereira da Cunha seja mais do que uma placa. Que ela se torne um lembrete permanente de que a liberdade exige vigilância e de que nenhuma nação prospera quando escolhe esquecer sua própria história.

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