Irlan MeloAdvogado, teólogo, professor universitário e vereador de BH eleito para seu segundo mandato como o 8° vereador mais votado de BH

Quando a Justiça parece escolher lados

Publicado em 16/03/2026 às 06:00.


Dizem que o Brasil é o país da esperança. Eu começo a achar que também é o país da inversão. Porque, muitas vezes, parece que vivemos em um lugar onde o errado vira vítima, o suspeito vira herói e quem ousa questionar passa a ser tratado como ameaça à democracia.

Curioso, não?

Faço uma pergunta simples: por que tantos corruptos prosperam no Brasil? Não me refiro a explicações técnicas, teses jurídicas sofisticadas ou termos em latim que só especialistas compreendem. Falo de percepção, de moral, de lógica básica.

Em um país sério, o culpado tem medo da Justiça. No Brasil, muitas vezes ele dá entrevista. Em um país sério, o inocente confia nas instituições. No Brasil, muita gente começa a temê-las.

E nós assistimos a tudo isso como se fosse normal.

Dizem que vivemos em um Estado Democrático de Direito. Mas que democracia é essa em que a lei parece elástica? Estica para uns, encolhe para outros. Que justiça é essa que encontra provas quando convém e parece perder a memória quando não convém?

A Bíblia ensina algo muito claro. Duas coisas são abomináveis: condenar o inocente e absolver o culpado. Infelizmente, às vezes parece que estamos fazendo justamente o contrário. E quando a sociedade começa a perceber esse tipo de incoerência, a confiança nas instituições inevitavelmente se enfraquece.

O cidadão comum escuta explicações técnicas: “foi anulado, mas não foi absolvido”; “foi condenado, mas havia vício no processo”; “foi julgado, mas a competência era outra”. São tantos detalhes jurídicos que muita gente passa a sentir que a justiça virou um jogo complexo, no qual quem domina as regras escondidas sempre encontra uma saída.

Mas o que mais chama atenção é outra coisa: quando alguém questiona, não recebe resposta com argumentos, recebe rótulos. “Radical”, “antidemocrático”, “extremista”. Desde quando perguntar virou crime? A Constituição garante liberdade de expressão justamente para que a sociedade possa debater, discordar e refletir.

Vivemos tempos curiosos. Às vezes parece que o debate público virou tribunal e a narrativa virou prova. Ainda assim, continuo acreditando em princípios simples: lei é lei, prova é prova e justiça deveria ser justiça. Igual para todos.

Porque quando a Justiça começa a escolher lados, ela deixa de ser um pilar da democracia e passa a ser vista como instrumento. E instrumento nas mãos do poder raramente é neutro.

Não peço que todos concordem comigo. Peço apenas que observem. Observem quem pode tudo. Observem quem não pode nada. Observem quem é protegido e quem é silenciado. Depois reflitam se isso parece equilíbrio.

O Brasil não precisa de heróis blindados nem de vilões fabricados. Precisa de coerência. Precisa de instituições fortes, respeitadas e confiáveis.

Porque quando um país começa a premiar o erro e punir a divergência, ele não está defendendo a democracia. Está brincando com ela. E a história mostra que brincar com a verdade sempre cobra um preço.

A pergunta que fica é simples: quem vai pagar essa conta?

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