Claudio OlivaClaudio Oliva é jornalista especializado em turismo e hotelaria, pós-graduado em Turismo pela Universidade de Barcelona, presidiu a Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo. Editor da Qual Viagem, colaborador em diversos portais de turismo, é também diretor Executivo da Assimptur Assessoria de Imprensa.

Ação coletiva para assegurar a segurança das mulheres no carnaval

Publicado em 12/02/2026 às 16:57.Atualizado em 12/02/2026 às 17:18.
De acordo com o Índice de Conscientização sobre Violência contra as Mulheres, 96% das pessoas reconheçam ter responsabilidade diante do problema social que é a violência contra mulheres, mas 62% não sabem identificar e/ou agir diante de casos do tipo e 50% já deixaram de intervir em situações reais por medo de serem prejudicados (Venus Major via Unsplash)
De acordo com o Índice de Conscientização sobre Violência contra as Mulheres, 96% das pessoas reconheçam ter responsabilidade diante do problema social que é a violência contra mulheres, mas 62% não sabem identificar e/ou agir diante de casos do tipo e 50% já deixaram de intervir em situações reais por medo de serem prejudicados (Venus Major via Unsplash)

Enquanto foliões de todo o país se preparam para o Carnaval e são divulgadas campanhas de conscientização sobre assédio e abuso sexual durante festas e blocos, o Índice de Conscientização sobre Violência contra as Mulheres, lançado no final de 2025 pelo Instituto Natura e Avon, chama a atenção para a falta de informação sobre intervenção de terceiros em situações de violência contra mulheres.

O Índice, baseado na escuta de brasileiros das cinco regiões do país, revela um cenário contraditório e preocupante: embora 96% das pessoas reconheçam ter responsabilidade diante do problema social que é a violência contra mulheres, 62% não sabem identificar e/ou agir diante de casos do tipo e 50% já deixaram de intervir em situações reais por medo de serem prejudicados.

Essa omissão, segundo Beatriz Accioly, antropóloga e líder de Políticas Públicas pelo Fim da Violência Contra Meninas e Mulheres no Instituto Natura, pode potencializar os riscos de escalada da violência, além de colaborar para a normalização de abusos. Esta normalização, inclusive, é o que torna o crime de importunação sexual comum no Brasil não só no Carnaval, mas durante todo o ano.

"Violência contra mulheres no Carnaval não é exceção, nem 'desvio de festa': é expressão de desigualdades estruturais que atravessam o espaço público, o lazer e o corpo das mulheres. O Carnaval não cria a violência, mas amplifica práticas já naturalizadas, e é preciso reforçar que a suspensão simbólica das regras sociais não suspende direitos", diz a especialista.

Para Beatriz, focar em como a mulher pode se proteger de situações de violência no Carnaval, como evitar ficar sozinha em meio à multidão, é um equívoco. "Não é o álcool, nem o figurino, nem o 'clima de festa' que causa a violência. Ao focar no comportamento individual da vítima, ignoramos que a segurança da mulher na folia depende, na verdade, de infraestrutura urbana, serviços públicos preparados e uma mudança cultural sobre o consentimento", destaca.

5 formas de intervir em situações de assédio no Carnaval

Neste Carnaval, o Índice de Conscientização sobre Violência Contra Mulheres do Instituto Natura reforça que campanhas pelo fim da violência contra mulheres são importantes: apesar de recorrentes neste período do ano, 40% dos brasileiros dizem que não se lembram de terem visto campanhas sobre o tema nos últimos 12 meses (o questionário foi aplicado entre junho e agosto de 2025). No entanto, o foco deve ir além do que é ou não violência e como evitá-la, chegando ao debate sobre como ajudar mulheres nesta situação.

Somente 29% dos participantes da primeira pesquisa para o Índice, que deve ser atualizado anualmente, demonstraram conscientização "alta" ou "muito alta" sobre leis, serviços de apoio e conduta adequada em situações de violência contra mulheres, enquanto 28% demonstraram conscientização "baixa" ou "muito baixa" a respeito. "O foco tem que sair da vítima e ir para a testemunha ativa", afirma Beatriz Accioly. "Intervir não é só confrontar, é também ativar a rede e apoiar", resume a especialista.

Conheça formas de intervir em situações de violência contra a mulher em ambientes de festa sem agravar riscos:

  1. Saiba reconhecer e divulgue para seus amigos os sinais para pedir ajuda discretamente, como o gesto de abrir e fechar a mão com o polegar centralizado à palma;
  2. Organize saídas coletivas, pontos de encontro e redes de cuidado entre amigos;
  3. Utilize a técnica da distração: ao ver uma mulher em situação suspeita, finja que conhece a vítima e ofereça ajuda para se afastar do suposto agressor de maneira discreta, abordado-a com algo como "Oi, amiga, estava te procurando! Vamos ao banheiro juntas?" ou "Oi, prima, estamos indo para outro local. Vamos juntos?";
  4. Acione seguranças ou policiais apontando o local da violência;
  5. Atenção ao consentimento vulnerável: se a mulher está visivelmente embriagada, ela não pode consentir. Amigos e desconhecidos devem atuar como barreira de proteção, evitando o contato de estranhos à mulher.

Segundo a especialista do Instituto Natura, é preciso também compreender o limite entre paquera e importunação ou assédio, assim como distinguir as manifestações de violência. O "não é não" é uma conquista cultural recente que precisa ser reforçada por políticas públicas, diferenciando que:

  • Paquera é consentida e que consentimento não se presume, se verifica;
  • Importunação sexual é o "beijo roubado", a "mão boba" ou toques não autorizados em espaços públicos e configura crime;
  • Estupro de vulnerável é quando a vítima não tem capacidade de consentir um ato sexual.

Por fim, Beatriz Accioly explica que diferentes tipos de violência continuam ocorrendo durante o Carnaval. "É um erro focar apenas no assédio que pode acontecer em espaços públicos - no bloco, no clube, na avenida - e esquecer que a violência doméstica, infelizmente, continua ocorrendo entre quatro paredes, mesmo durante todos os dias de festa", conclui.

As situações podem acontecer tanto no espaço público quanto no ambiente privado, por isso, a recomendação da especialista é que, ao testemunhar qualquer ato violento, todas as pessoas saiam da posição de omissão e passem a intervir de forma ativa - mas sem se arriscar ou confrontar o agressor - na proteção e acolhimento das mulheres.

Para mulheres que estão em situação de violência e precisam de apoio psicológico ou jurídico, o Instituto Natura oferece a assistente virtual Ângela, que disponibiliza informações sobre serviços e leis, além de atendimento profissional humano especializado. Apenas em 2025, foram feitos 458 atendimentos na plataforma, com 219 encaminhamentos para políticas públicas e 120 apoios de transporte seguro via parceria com a Uber até delegacias. A plataforma não funciona como canal de denúncia, mas direciona as mulheres aos órgãos públicos oficiais. O atendimento ocorre seguindo protocolos reconhecidos nacionalmente, com confidencialidade.

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