E de longe tenho o hábito de manter contato com nossos companheiros de semelhante faina nos jornais do interior mineiro. É uma honra saber da disposição dos que enfrentamos que, como os da capital, se dedicam com consciência dos inúmeros desafios que pairam sobre a população sempre crescente da velha província, de que nos orgulhamos.
Um desses colegas de mister foi Aníbal Albuquerque, do Sul de Minas, autor de numerosos e excelentes artigos. Com leitores certos e apreciadores de seus textos, também de seus livros que marcaram época.
Aníbal Albuquerque, residente por muitos anos no Sul mineiro, em uma de suas cartas, chamou-me a atenção para um caso que registrara no Nordeste.
“Sua crônica de hoje, ‘Sensações Orbitais’, transportou-me ao Nordeste dos anos setenta, quando era engenheiro, construindo pontes e outras obras d’arte, na estrada Patos – Piancó.
Patos, aliás, é cidade da Paraíba e não do Ceará, como sua fonte anotara.
Trabalhava, igualmente como engenheiro, mas em outra empresa, encarregada da pavimentação asfáltica, o atual senador pelo Rio Grande do Norte José Agripino Maia.
Jovem e dinâmico, filho do então Governador Tarcísio Maia. Certo domingo, num Cezna, levou-me a conhecer a fazenda da família Maia, em Mossoró. Depois, só o tenho visto pela televisão, como político potiguar.
Essa viagem no tempo, que o amigo jornalista me proporcionou, fez-me recordar também o maior contato que tive com a verdadeira crueza da seca nordestina.
Mulheres grávidas, com enormes barrigas, caminhando sob sol inclemente, latas d’água na cabeça, a buscar o precioso líquido a quilômetros de distância de seus casebres. Quando era possível, pude proporcionar algumas alegrias àquela gente humilde, liberando caminhão-pipa, para que a água ficasse mais próxima de seus lares.
A par do sofrimento presenciado, conheci situações inusitadas, de que, de vez em quando, me recordo. Convidado, certa vez, para almoçar com um fazendeiro abastado, em sua residência rural, surpreendi-me com suas três esposas, todas irmãs, morando na mesma casa, sede da fazenda, cada qual com seu quarto mobiliado.
Naquele almoço, em que o “doutor” estava presente – pois engenheiro no sertão é ‘doutor’ -, o sogro do fazendeiro também comparecera, compartilhando a mesa com as três filhas e o rico genro. Jamais me esqueci do belo rosto da mais jovem esposa, talvez com seus dezessete anos, oferecendo-me um suco de fruta, à beira da rede em que eu cochilava, após a lauta refeição.
Obrigado amigo, por remoçar-me trinta anos”.