Não acontece apenas no Brasil, mas em qualquer lugar do mundo, entristece a notícia que leio nos jornais. A Fundação que administra o legado do poeta chileno e Prêmio Nobel de Literatura, Pablo Neruda, está fazendo um veemente apelo visando a levantar ajuda para manter o funcionamento de suas antigas casas, hoje casas-museus, em sua pátria.
Neruda se consagrou como um dos maiores poetas do mundo em seu século, e não foi por favor algum que a Academia Sueca lhe prestou a homenagem, sonhada pelos maiores autores do planeta. Também diplomata na gestão do comunista ou socialista Salvador Allende (1970 – 1973) gozava de prestígio universal, independentemente de posição ideológica. Sua criação estava sobre tudo e todos.
Visitadas, carinhosamente pelo jornalista e advogado Paulo Narciso, as casas-museus eram preciosas para Neruda, nascido no bosque andino, como gostava de enfatizar. Lá, viveu a infância, como relata em apreciada autobiografia – “Confesso que vivi”. De lá partiu, sem apresentações e companhia pelos caminhos do mundo, mesmo se sentindo perdido na cidade. Começou, assim sua rocambolesca imersão no universo da cidade grande enfrentando dificuldades e desejos. Como vagabundo, desceu na cosmopolita Valparaiso, um caminho sem volta.
A partir daí, conhece gente de toda espécie e natureza, percorre as Américas, aproxima-se de nomes já consagrados no meio literário, participa de congressos políticos, desembarca na Índia, acercando-se de pessoas que considera “desventurada família humana”. Em suas memórias, constituem alguns dos melhores trechos, pela natureza das descrições e das pessoas que com ele conviveram.
Ele próprio confessa: “Estas memórias ou lembranças são intermitentes e, por momentos, me escapam porque é exatamente assim. A intermitência do sonho nos permite suportar os dias de trabalho. Muitas de minhas lembranças se toldaram ao evoca-las, viraram pó como um cristal irremediavelmente ferido”.
Os que sonhariam visitar o Chile para conhecer as casas-museus poderão ficar desencorajados diante do seu possível fechamento, embora pontos turísticos importantes para apreciadores do notável poeta. Sobre ele e sua produção, muito falávamos durante minha época de Montevideo com o também poeta, Ruben Romero Arenillas, que não mais está entre nós. Ou cá nos Brasís, com o excelente ser humano e homem culto, que foi Abílio Machado Filho, secretário do governador Milton Campos, que não deixou de trazer livros inéditos por aqui, focalizando o vate da Isla Negra.