Os usos e costumes variam sempre, o que se observa no mais fechado ambiente das antigas comunidades religiosas. Evidentemente, a sociedade hoje não se importa ou se interessa pelo assunto. Pode ser apenas que atraia a atenção dos curiosos e de estudiosos desavisados. O português Ivo Carneiro de Souza, por exemplo, registra que, em certo dia de 1433, o célebre religioso lusitano D. Gomez atravessava a ponte velha de Florença, a luxuriante cidade que rivalizava com Roma, quando deparou com uma minguada e decrépita habitação, que acolhia mulheres emparedadas.
Ali, isoladas do resto do mundo, haviam transformado o local em centro importante de devoção religiosa, que atraía a caridade e a piedade de muitos transeuntes.
Os riscos físicos e morais, impostos pela exiguidade e pela decadência da casa, teriam impressionado o reformador português, que se sentiu impelido, de imediato, a procurar um mosteiro capaz de recolher aquela comunidade feminina, o que efetivamente se concretizou numa casa da rua Ghibellina.
D. Gomez promoveu, paulatinamente, a trasladação das emparedadas em 14 de dezembro de 1433, fazendo-as igualmente tomar o hábito negro das beneditinas reformadas, copiando-lhes a Regra, além de dotar a comunidade monástica de constituições por ele próprio, elaboradas.
O reformador luso teria respeitado escrupulosamente a vida das emparedadas em rigorosa clausura e, somente simbolicamente, quando ali tinha ingresso uma nova noviça, se abria um pequeno muro que, logo depois, era reedificado.
O fato encontrou espaço na história porque as cartas trocadas entre algumas emparedadas e pessoas prestigiadas — inclusive das cortes — tornaram-se conhecidas e contribuíram para mudar a interpretação sobre o modo de ser e viver dessas mulheres. Vale a pena revisitar esse passado tão ignorado, se é que ainda interessa a alguém, a esta altura, retornar a um tempo tão distante. Afinal, já estamos milênios à frente.