Manoel HyginoO autor é membro da Academia Mineira de Letras e escreve para o Hoje em Dia

BH, novo ano

Publicado em 10/01/2026 às 06:00.

Estamos em 2026 e meditamos sobre o que aconteceu em Belo Horizonte em tanto tempo de existência como capital de Minas Gerais. Sentimos necessidade de lembrar que, no vindouro calendário, a metrópole comemorará 130 anos de inauguração. Em 1957, quando festejou 60 anos, eterno poeta de Itabira, o Carlos Drummond de muitas jovens amizades, comentava:  “Primeira cidade do Brasil quanto ao ritmo de crescimento, eu sei; primeira quanto a crepúsculos; a única no mundo para quem teve 18 anos em tuas ruas, e com tuas noites abriu uma gravura na alma. 

Tuas noites, cidade minha, tuas noites mudaram muito? Era um cheirar a jasmim que se despencava da Serra e vinha entornar-se no Bairro dos Funcionários; e nele todo se embalsamava o sono das belas do Clube Belo Horizonte, ciosamente guardadas por leões de cerâmica e duras bengalas de irmão. 

Decerto não mudaste, cresceste: e ameaças crescer mais, crescer sempre; e não errou aquele Zé dos Lotes, lembras-te?  De caroço no pescoço, que em teu alvorecer inaugurou o gordo negócio imobiliário. Não te censuro, filha, nem te panteio. Há uma hora terrível para as cidades, quando querem ser diferentes de si mesmas; quase nunca pousa um anjo e ordena-lhes “Para”, como a Assis, na Úmbria. 

Tua essência “Curral d’El Rey” dorme em alguma trave da casa da Fazenda do Leitão; deixa-a dormir; a velha igreja da Boa Viagem passa às vezes no vento, há quem lhe ouça os sinos; é folhear a história do bom Abílio Barreto, e essas mágicas se operam. 

Nem disso careço. Fecho os olhos e vejo Manuel das Moças, mesureiro, no Bar do Ponto; Alzira, branca e devastada, faz ouvir sua voz rouca na avenida Oiapoque; o Restaurante Colosso acolhe a fome dos estudantes; Batista Santiago compõe versos que o vento leva pelas esquinas da noite; o Dr. Mendes Pimentel e o Desembargador Rafael Magalhães (Platão e Sócrates?) deambulam ao anoitecer rumo ao Cinema Odeon. 

Belo Horizonte mais nova, com os bancos mais ricos do Brasil, a burguesia próspera se instalando em torno do lago da Pampulha, e São Francisco de Assis que nunca pode ver sua capela cantar (tem dessas coisas, és meio implicante). Andas tão bonita que nem dás confiança a antigos moradores. Eles envelheceram, é claro; e tu agora é que estás no primeiro viço. 

Recebe – de qualquer modo - esta cantiga de canhestro amor. 

Carlos Drummond de Andrade,1957.  

Compartilhar
Ediminas S/A Jornal Hoje em Dia.© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por