Manoel HyginoO autor é membro da Academia Mineira de Letras e escreve para o Hoje em Dia

Contra as facções

Publicado em 23/07/2026 às 06:00.

Por que houve, no Parlamento Europeu, em Bruxelas, este mês, um Fórum Internacional para tratar da Geopolítica da Criminalidade Organizada Transnacional, Inteligência Financeira e Cooperação Internacional? Quem responde é o advogado Antonio José Campos Moreira, Procurador-Geral da Justiça do Rio de Janeiro. Eis a explicação: “A criminalidade organizada se desenvolveu a ponto de superar limites locais ou nacionais. Hoje, facções brasileiras atuam em redes transnacionais, dialogam com mercados ilícitos internacionais, movimentam recursos em múltiplas jurisdições e se beneficiam das fragilidades de cooperação entre os Estados. O Fórum nasceu, portanto, de uma convicção objetiva: não se enfrenta o crime organizado moderno com respostas isoladas”.

Ainda segundo o Procurador, é preciso integração institucional, inteligência financeira, investigação patrimonial, recuperação de ativos e cooperação jurídica internacional efetiva. O Parlamento Europeu foi o ambiente adequado para receber esta agenda que interessa ao Brasil, à América Latina e à União Europeia. O objetivo, assim, foi construir pontes permanentes entre Ministérios Públicos, juízes, forças de segurança, academia e parlamentares de diversos países, a fim de construirmos uma solução que enfrente todas as faces deste problema. Com isso, buscamos aproximar instituições, compartilhar experiências e transformar diagnósticos comuns em respostas concretas e coordenadas.

A urgência desse debate não é casual. O crime organizado deixou de ser um fenômeno marginal para tornar-se uma estrutura empresarial complexa, que utiliza a tecnologia e a globalização para expandir suas atividades. Ao mimetizar a estrutura das corporações legítimas, essas facções infiltram-se na economia formal, lavam capitais através de paraísos fiscais e corrompem as estruturas democráticas. Quando o Estado falha em proteger suas fronteiras financeiras e territoriais, abre-se o flanco para que essas organizações governem, de fato, territórios inteiros, subjugando populações e desafiando a soberania das nações.

O encontro em Bruxelas sinaliza, portanto, um despertar necessário. Trata-se de uma estratégia de defesa da própria civilização. Ao unir forças, o Brasil e a União Europeia demonstram compreender que a paz social, nestes novos tempos de hiperconectividade, depende vitalmente da capacidade que as democracias terão de se articular tão rápido quanto os grupos que, nas sombras, tentam, a todo custo, desestabilizá-las. A soberania, hoje, é exercida em rede.

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