Aylê Salassiê Filgueiras Quintão viajou o mundo e conheceu os problemas. Depois de passar por outros grandes jornais das maiores cidades do Brasil, assumiu altas redações na capital federal. E é professor na matéria. De lá, escreveu sobre Ódio pós-eleições, de que extraio as seguintes ideias.
"O mandato presidencial, que termina em 31 de dezembro, caracterizou-se pelo esforço de atravessar uma espécie de “pinguela” conectando uma “polarização ideológica” para conseguir a sobrevivência de alguma governabilidade. A expressão foi desenterrada pelo marketing, sugerindo uma luta hipotética do “bem contra o mal”. Emergiu, quase que religiosamente, dos escombros das grandes revoluções populares: a francesa (1789) – girondinos (direita), jacobinos (esquerda); ou a russa (1917) – mencheviques (conservadores) x bolcheviques (revolucionários). Quem pretendesse uma postura mais moderada era descartado de alguma forma. Sem chegar à virulência daquelas conflagrações, operou simbolicamente nas últimas eleições presidenciais no Brasil (2022) e sobreviveu para a de 2026.
Há uma sinalização de que a estratégia tende a se repetir como combustível na campanha deste ano, embora ofereça outras opções. Contudo, se após o pleito de outubro, conhecidos os resultados, se tiver continuidade essa cruzada do ódio, mesmo alegórico, os brasileiros correm o risco de ter de conviver com essa inquietante herança nos campos da política e da economia ao longo os outros quatro anos de um novo governo. Nesses últimos anos, as políticas públicas foram negligenciadas pelas disputas hegemônicas na política. Prejudicou a governança, desestabilizou o diálogo entre Poderes e vacilou diante das metas econômicas, onerando a população.
Pela omissão, gerou em consequência uma insegurança em todos os segmentos da sociedade. Esse quadro desestimulou novos investimentos. Como agravante, o Brasil deixou de ser visto como um país neutro nos conflitos externos. Por isso, se repetida postura belicosa e postura belicosa e omissa, após o pleito de outubro, problemas imprevisíveis podem surgir para o novo governo e, particularmente, para o Brasil.
Nessa altura da governança, os brasileiros parecem esgotados com a disputa, quase pessoal, irracional e narcisista pelo Poder do Estado, que vem alimentando uma imagem pública de violência, corrupção e ódio, com reflexos cívicos, culturais e individuais negativos para a cidadania e para a Nação".