J. D. Vital, da Academia Mineira de Letras, está com livro novo na praça. É uma bela notícia para conhecer e apreciar, usar bem o tempo para acrescentar algo ao que já sabe. Desta vez, o autor segue veredas como de outras obras anteriores, buscando no passado de Minas Gerais personagens típicos. O resultado é, como de antes, muito útil.
São três as figuras centrais, gente pobre e negra. Francisco de Paula Victor, alfaiate em Campanha, e Silvério Gomes Pimenta, caixeiro em Congonhas do Campo, nascidos ambos sob regime de escravidão, e o terceiro, Heitor de Assis, de Nazareno, que veio à vida terrena após a libertação pela princesa Isabel.
O terceiro era filho de violinista de igreja e regente de orquestra em São João del-Rei, e o trio conheceu destinos gloriosos. O primeiro virou santo, beatificado pelo Papa Francisco e será proximamente canonizado. O segundo foi feito bispo e primeiro arcebispo de Mariana, eleito para a Academia Brasileira de Letras.
O terceiro foi nomeado por Vargas primeiro capelão do Exército brasileiro após a República e enviado para Fernando de Noronha, com três mil soldados, durante a II Grande Guerra.
Vital ouvira falar do Padre Heitor, vigário de Barão de Cocais, cidade operária na região metalúrgica, onde o autor nasceu. Seguindo indicações de quem conhecera o personagem, o escritor resgatou a história e acompanhou os passos do sacerdote, foi aos lugares em que o capelão viveu, visitou as igrejas de São João del-Rei, viajou ao arquipélago de Fernando de Noronha, as pessoas que sabiam a respeito, muita gente deste canto de Deus, percorrendo terras antes por ele desconhecidas para alcançar seu desideratum. Conseguiu-o com louvor e gáudio.
Embora o padre Heitor de Assis seja a figura central da história, tem-se em “Morte em Cocais” uma valiosa e importante reconstituição do Brasil naquela época, com a Segunda Grande Guerra como pano de fundo, mas com um resgate muito bem fundamentado dos últimos tempos do sacerdote em Minas, sua terra natal para a qual voltara finalmente em 1945.
Heitor faleceu em virtude de acidente na localidade de Andaime, pouco acima da linha da Central do Brasil, nas proximidades de onde moravam inúmeros operários. Após a missa, às 7 horas, dirigia sua baratinha bordô, sem capota, tendo ao lado o sacristão, com o viático e os santos óleos. O moribundo teria recusado a extrema-unção e a eucaristia. O motorista perdeu o controle, subiu num barranco ao desviar-se de alguma coisa. O carro tombou. O relógio da matriz assinalava 8 horas. O sacerdote foi levado ao posto médico. Mas os ossos estavam quebrados e havia hemorragia interna. Não havia o que fazer.