É apenas uma palavra, inserida em todos os dicionários da língua. Supõe-se que os lusos e os brasileiros, que a falam nestas duas partes do mundo — mas também os que habitam regiões da África e algumas da Ásia — conhecem seu significado. No Brasil, Carlos Drummond de Andrade é um dos apaixonados por ela.
Refiro-me a gratidão, a que o Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, D. Walmor Oliveira de Azevedo, devota alto respeito e amor. Há dias, membro da Academia Mineira de Letras, teceu sábias considerações sobre a gratidão. Começou, observando:
“A gradativa perda do sentido de delicadeza no cotidiano, entre outras consequências, leva à perda do nobre sentimento de gratidão. E a ausência da gratidão incide no tecido social, com repercussões no aumento da violência, a ingratidão expressa falta de respeito ao semelhante, não se reconhece o que se recebeu graças à ajuda do próximo. Um sinal de deficiência no sentimento de gratidão é a atitude de revolta ou a mágoa de quem já recebeu muito, mas não se conforma por não receber mais. Pessoas que se tornam incapazes, pela mágoa, de reconhecer o que já receberam”.
Acrescenta o alto dignitário católico: “A memória obscurecida, em razão de carências espirituais e humanísticas, embrutece corações e alarga o tecido do egoísmo, da indiferença. Elege-se o caminho da ingratidão, fermento para o ódio, para a revolta, que alimenta disputas insalubres. Lúcido é o ensinamento sempre atual de Santo Tomás de Aquino, sobre a centralidade da gratidão na arquitetura das virtudes morais e sociais. Ele ensina que a gratidão não é apenas uma atitude psicológica de reconhecimento, mas trata-se de uma exigência da justiça e da ordem moral inscrita na própria natureza humana”.
E há mais: “Constitui, pois, ameaça a vínculos fundamentais que sustentam a convivência humana, banindo da memória a lembrança do bem recebido. A ingratidão pode se tornar vício, alimentar ódio e, consequentemente, gerar inimizades que alicerçam atitudes hostis, até mesmo o desejo de morte ou de fracasso do semelhante. Adverte Santo Tomás que a gratidão é virtude anexa à justiça e não mera emoção, cortesia ou etiqueta social. O ensinamento indica ser a gratidão uma obrigação moral, quando se recebe um benefício gratuitamente. Desconsiderar essa obrigação aponta para uma estreiteza humana e espiritual, inclusive daqueles que podem se valer de discursos e reflexões sobre justiça e humanismo, mas são incapazes de exercer a gratidão”.