Manoel HyginoO autor é membro da Academia Mineira de Letras e escreve para o Hoje em Dia

Lutas ao Norte

Publicado em 21/07/2026 às 06:00.

Acaba de ser reeditada a fundamental obra “A Coluna Prestes – na Bahia e no Norte de Minas”. Elaborado por Dário Teixeira Cotrim, advogado, escritor e incansável pesquisador, o livro presta um tributo necessário aos brasileiros, que muito deram de si pela nação em um período extremamente difícil e pouco estudado em nossa historiografia. Luís Carlos Prestes, militar gaúcho, emprestou seu nome a esta marcha épica que percorreu mais de 24 mil quilômetros do território brasileiro durante exatos 647 dias, de 1924 a 1927, em deslocamentos contínuos que desafiaram todos os limites da resistência humana.

O prefaciador chama a atenção para a dimensão logística desse movimento. Na longa caminhada, utilizaram-se cerca de 7 mil cavalos, abateram-se mais de dez mil reses e consumiu-se imenso montante de cereais, farinha e rapadura. Daniel Antunes Júnior, eminente membro dos Institutos Históricos de Minas Gerais e de Montes Claros – nascido em Espinosa em 1921 e falecido em 2025 –, assina um prólogo que enriquece a obra. Baiano de origem, mas radicado em Minas há décadas, Daniel traz em seu relato o peso da vivência regional.

A Coluna Prestes foi fruto de uma inclinação contestatória ao poder central, então dominado pelo Partido Republicano Paulista. O sistema, inspirado na aristocracia rural e nas "eleições a bico de pena", somou-se ao rigoroso estado de sítio de Artur Bernardes, cujas medidas de exceção apenas aprofundaram o fosso entre o governo e a oposição.

Não se deve esquecer a Revolução de Isidoro, em São Paulo, que gerou a luta armada ao aliar-se às forças que Prestes consolidara no Rio Grande do Sul. Ao idealismo tenentista, agregou-se toda sorte de aspirações republicanas. Como bem anotou Daniel Antunes: “Não deixava de ser uma aventura diversionista, além de visionária. Quase a totalidade da Coluna não se destinava a combater ninguém pela frente – fossem adversários políticos, instalações governamentais ou quartéis”.

Este é um livro límpido, honesto e urgente, que o brasileiro não pode deixar de ler para compreender as raízes do Brasil de hoje. Para sua produção, ouviram-se as vozes mais autênticas da Bahia e de Minas; sobretudo os habitantes daquela região – os "sem nome" que participaram daquela vida sofrida. Contou-se também com Wanderlino Arruda, profundo conhecedor da história regional, autor da orelha e respeitável escritor.

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