Manoel HyginoO autor é membro da Academia Mineira de Letras e escreve para o Hoje em Dia

O nosso petróleo

Publicado em 16/11/2022 às 06:00.

Os excelentes dividendos distribuídos aos acionistas da Petrobras adverte-nos para o que constituiu a luta pela criação e implantação da empresa no país. Foram décadas de tenacidade dos defensores da ideia, enquanto numerosos insistiam na tese de que não havia petróleo por aqui no que eram fortalecidos pelos grandes grupos internacionais de exploração e distribuição do ouro negro.

Naquela época, os estudantes se engajaram na difícil empreitada. Em Belo Horizonte, a campanha do “Petróleo é nosso” encontrou cenário apropriado nas proximidades da Faculdade de Direito e Praça Afonso Arinos. Faixas foram estendidas entre os postes e houve tardes e manhãs de veementes discursos.

O repórter Edgar Morel, do jornal O Cruzeiro, nunca havia visto um poço de óleo e foi ao Recôncavo Baiano, onde surgira oficialmente o petróleo em solo brasileiro, em 21 de janeiro de 1939. Deveu-se à teimosia de Oscar Cordeiro, com 1,55 de altura, pobre, mas que acreditava existir óleo no Recôncavo, apenas 30 quilômetros de Salvador.

Para sua aventurosa empreitada, Oscar recorreu ao que havia de mais antiquado em termos de ferramentas da época e máquinas que, de tão velhas, só poderiam ser encontradas na Abissínia, e olhe lá, disse  Morel. É preciso observar que isso caminha para 100 anos, pois, em 1933, quando perfurava o poço que se dizia de Lobato, e de onde Oscar viu aquela “coisa”, visguenta, jorrar.

Então, os jornalistas Lourival Coutinho e Joel Silveira puderam constatar o fenômeno, pois viram Cordeiro encharcar as “próprias mãos, embriagados de patriotismo”. Parecia algo tão importante quanto descobrir o Brasil.

Depois do acontecido, Oscar Cordeiro tomou coragem e se dirigiu ao Ministério da Agricultura para levantar recursos e continuar as pesquisas, utilizando — assim esperava — sondas e brocas. Acabou  alijado do programa e até proibido de  entrar no acampamento. 

Edgar Morel observou: “o Conselho Nacional do Petróleo reiniciou a perfuração do poço e Getúlio anunciou a descoberta de petróleo no Brasil, ficando famosa sua fotografia mostrando a mão suja de óleo negro”.

O jornalista insistiu. Queria conhecer o pioneiro Oscar Cordeiro. Encontrou-o atirado à miséria, empregado na Bolsa de Mercadorias de Salvador, com o ínfimo ordenado mensal de R$ 4 mil.

Os técnicos concluíram que o poço era produto de má-fé e desídia, que atrasara em cinco anos o início da exploração petrolífera no Brasil. Conseguiram desacreditar Oscar, o pioneiro.

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