Política no Nordeste sempre foi violenta. Há coleções de jornais e inúmeros livros para confirmar e ilustrar a afirmação. Lustosa da Costa soube usar o rico manancial de mortes que estigmatizou o legado de várias gerações.
Registro de Lustosa da Costa ajuda a divulgar um caso típico, lembrando Chico Monte, o último coronel: “Chico Monte foi o último dos ‘coronéis’ da política cearense (...). Foi o primeiro deputado federal a morrer em Brasília, vítima das provocações dos adversários que o agrediam, tentando fazê-lo reviver a tradição de violência o que, no fim da vida, no auge do prestígio, só lhe seria prejudicial.
Costumava dizer diante de algum crime de morte envolvendo correligionários: “É hora de enterrar o morto e absolver o que matou”.
Para ele, o político devia temer fama de rico, conquistador e valente. Do abonado, todos querem tirar dinheiro. (...)
Chico começou a vida pública como cabo eleitoral do chefe conservador, doutor José Sabóia, juiz e dono da fábrica de tecidos da cidade, eterno rival do bispo, dom José Tupinambá da Frota, por cujo partido se elegeu vereador à câmara municipal.
Em 1922, os conservadores estavam “debaixo”. Os democratas conseguiram a nomeação de um tenente de polícia, Castello Branco famoso por botar cangaceiros para correr no Cariri, a fim de conter suas tropelias e arruaças. Uma semana depois, Chico agride adversários políticos, na praça principal de Sobral, numa ensolarada manhã de domingo. A líder democrata, Dondon Ponte, dona do Hotel do Norte, concita o delegado a prendê-lo.
Castello hesita. Ante notícia de nova provocação de Chico, Dondon lança, à face do hóspede, o desafio fatal: “Se o senhor não tem coragem, me dê sua farda e vista minha saia que prendo o homem...”
Castello Branco vai ao encontro do desafiante e é, por ele, mortalmente esfaqueado no baixo ventre, ao final de um duelo de feras, travado lealmente em praça pública.
Absolvido, Chico, dois anos depois, é acusado de ser um dos executores do jornalista democrata Deolindo Barreto, inimigo jurado de José Sabóia, trucidado no início dos trabalhos da principal sessão eleitoral de Sobral. Para os amigos, começa a tomar a fisionomia do herói da cidade.
Tanto assim que o encontro sangrento com o oficial de polícia passa a ser uma das brincadeiras da criançada sobralense em que todos querem o papel do sobrevivente.
Com a democratização do País após a revolução de 1930, busca espaço próprio e decide ser deputado estadual contra o antigo chefe.