- Cê é de onde em BH?
- Neves.
Sabe essas cafeterias minúsculas, mas tão pequenininhas, cujas mesas ficam tão próximas umas das outras que, se alguém respirar mais fundo, você pergunta se está tudo bem com ela? Pois é. Eu estava numa dessas semana passada e precisei atender a uma ligação internacional em inglês. Quando desliguei, a moça ao lado, toda curiosa, me perguntou de onde eu era. Sorri e respondi em português, sem mistério nenhum, que sou daqui mesmo. Sou muito brasileiro, mais especificamente muito mineiro e, s’ocês jogar um zoom, vão ver que sou excessivamente belo-horizontino, seja lá o que for que isso signifique.
Conversando com Milton Hatoum, enquanto tomávamos um cafézin’, outro dia desses, ele asseverou que isso significa muita coisa. Embora ele seja suspeito para falar porque ama Minas Gerais e vive inspirado pelas ladeiras de Ouro Preto, pelas vilas e vielas das Gerais. Assim, preferi manter nossa prosa no terreno da crônica porque falar de BH e de Minas dá uma tese, um romance, vários poemas e muito bafafá. Ri e concordei com Milton. Realmente significa muito. Deve ser justamente por isso que mantenho com Minas, e com BH em especial, uma relação de amor e ódio; ou seja: amódio.
Não sei se dá pra definir um mineiro com precisão, mas um belo-horizontino acho mais fácil. Para mim, um belo-horizontino tem que entender o potencial que Cristiano, Antônio e Afonso têm de te imobilizar e não te deixar sair do lugar entre 7h e 9h, e também entre 17h e 18h. Teve um dia que fiquei tanto tempo engarrafado com Getúlio Vargas que fiquei com medo de ter que pagar IPTU, no ano seguinte. Meu carro já estava virando imóvel.
Falando em pagar, a gente também sabe que vai pagar caro por um cafezinho ou uma cervejinha na Savassi, mas poucas coisas são tão prazerosas quanto estar ali vendo a cidade acontecer bem diante dos nossos olhos, sentado numa cadeira de bar seja numa terça de tarde ou sexta de noite, cultivando uma amizade antiga. Se bater fome, dá pra esticar até o Mercado Novo para comer um tropeirinho, um pastel com caldo de cana na Pastelândia ou simplesmente se perder por semanas dentro do Mercado Central tentando achar a saída da Amazonas, tendo como referência aquele elevador que parece brincar de esconde-esconde com a gente: “Eu jurava que entrando nesse corredor ia dar na Augusto de Lima”, pensei, encarando o corredor sem saída da Drogaria Araújo, lá dentro. Araújo, aliás, é outro patrimônio de BH. Minha amiga Nery disse que, do que mais sentiu saudades enquanto morava em São Paulo, foi dela. Mas também, né?
Uma farmácia em que você pode comprar chocolates, miojo, frutas higienizadas, produtos de pet shop, pneu e até, pasmem, remédio, e que funciona 24H por dia, é realmente um diferencial.
Na fronteira norte, há outras partes de BH que eu quase não frequento, mas que têm seus atrativos. A Pampulha, por exemplo, onde está localizada a UFMG, eu chego no máximo até ela, como se dali em diante fosse território internacional. O Barreiro, que tentou se rebelar contra a gente e proclamar independência, mas depois pediu desculpas ‘pelo amor de Deus’ ‘desculpa qualquer coisa’ e até fez um Cristo Redentor para tentar se redimir. Venda Nova, com seu generoso um sol por habitante, irradiando calor infinito. E, claro, tem os endinheirados que moram em Nova Lima, mas que, para onde quer que viajam, juram de pés juntos que são de Belo Horizonte. O mesmo vale para outros menos abastados que, se perguntados onde moram em “Belo Horizonte”, respondem com tanta tranquilidade : “Bicas”, “Ibirité”, “Santa Luzia”, “Ribeirão das Neves”, “Vespasiano”… que nem parece que estão falando de outro município. Não os culpo. Talvez eu fizesse o mesmo. Aliás, até tenho uma ótima sugestão. Todas essas cidades deveriam ser incorporadas de vez à Belo Horizonte como regionais. Afinal, BH não funciona sem as pessoas que vêm de territórios extramunicipais para fazer esta cidade acontecer. Aqui é o nosso país, e cabe todo mundo. Liberem a cidadania belo-horizontina para geral.
Pode ser nisso que resida a resposta que eu procurava lá no início, sem saber. Ser belo-horizontino é isso mesmo: carregar uma cidade inteira no coração, no humor, no tropeiro, na pressa lenta, nas fronteiras imaginárias, na saudade da Araújo e até no orgulho meio disfarçado que a gente finge que não tem daqui, mas tem de sobra. Nuu! É viver dizendo que BH é um ovo e se sentir surpreso por encontrar alguém do Floramar, do Santa Efigênia ou quem sabe do Nova Gameleira durante uma viagem pro outro lado do planeta. Ser de BH é ser mineiro de uma forma toda especial e não se aguentar de tanto pertencimento.
Seja quem for! Seja João ou Maria. Pertencendo à massa alvinegra... Ou aos demais espectros... azul e branco, verde e branco e até o tigrão vermelho e branco, afinal de contas Nova Lima é ali, né? É um amódio assumido e ai de quem mexer com nossos times porque não tem nada mais perigoso que um mineiro enfezado com um trem, por Deus do céu! E mesmo com raiva, nosso sotaque é dengoso demais. Nó’sinhora. Tem base um trêm desse não, sô. Por isso, o sentimento não poderia ser outro.