Eu iniciei minha vida escolar aos quatro anos de idade. Estava completamente alfabetizado aos seis. Terminei o ensino fundamental aos 14. O ensino médio, aos 17. Iniciei a faculdade aos 18. Fui aprovado em meu primeiro concurso público aos 23, na prefeitura. Formei-me e tomei posse aos 24. Defendi o mestrado aos 26. Fui aprovado em um concurso público federal aos 28 e, aos 29, defendi meu primeiro doutorado. Sigo estudando, aprendendo, produzindo e acredito que nunca vou sair da escola.
Durante todo esse tempo, desde que passei a entender que a escola não era apenas um lugar para brincar, colorir e ouvir histórias que me faziam sonhar, ouvi professoras e professores fazendo reclamações que, de tão antigas, já deveriam ter sido resolvidas pelo Estado: salários baixos, pouca valorização da carreira docente, falta de estrutura básica para trabalhar.
E, inevitavelmente, algumas vezes tive aulas suspensas porque algum professor estava de licença médica. Durante muito tempo, confesso, eu não compreendia exatamente o que aquela expressão significava. Para mim, era simplesmente uma coisa que acontecia com professores.
Dênea era tão dedicada que, das cinco bolsas anuais que o Colégio Santo Antônio distribuía à comunidade, pelo menos uma acabava nas mãos de um de seus alunos.
Cybelle Libânio comemorava o aniversário em sala de aula. Levava bolo, refrigerante, salgadinho, balão e dividia com os alunos aquele dia especial, como dividia tantos outros dias do ano.
Adriana Silveira, sem a estrutura mínima necessária, conseguiu montar um ateliê de arte na escola. Levou os alunos a Congonhas para conhecer as obras de Aleijadinho. Depois, eles voltaram e pintaram telas inspiradas naquela experiência.
Eu poderia contar dezenas de histórias como essas.
O problema é que, por trás de tantas histórias bonitas, havia um preço.
E ele foi cobrado no corpo.
Dênea adoeceu das cordas vocais. Cybelle enfrentou o adoecimento emocional. Adriana passou por um problema gravíssimo relacionado à pressão nos olhos e precisou enfrentar inúmeras cirurgias.
Durante muito tempo, achei que aquilo fosse uma característica da profissão. Professor se entrega.
Professor dá um jeito. Professor faz além do possível.
Professor não mede esforços.
Até que, em junho de 2026, cheguei ao meu limite.
Eu amo meu trabalho. Amo ver alunos que nunca haviam realmente aprendido inglês começarem a usar o idioma no cotidiano, descobrirem que conseguem aprender e se sentirem motivados a continuar. Amo ver alunos sendo aprovados nas melhores universidades do país. Amo o “Oh! Professor!”, seguido daquele abraço apertado quando encontro antigos e atuais alunos por aí.
Nada disso desapareceu.
O que desapareceu, por algum tempo, foi a minha capacidade de carregar tudo o que vinha junto.
Depois de anos convivendo com situações que ultrapassaram o limite do razoável, entre abuso de autoridade, assédio moral e situações que me fizeram questionar até os princípios que deveriam orientar o serviço público, precisei parar.
Há algo especialmente curioso em adoecer trabalhando em uma instituição pública enquanto se observa, diariamente, que até o artigo 37 da Constituição Federal parece precisar de um médico.
Não escrevo isso para dizer que professores são frágeis. Escrevo justamente o contrário. Acho que temos sido muito fortes durante tempo demais.
Existe uma diferença entre dedicação e sacrifício. Entre compromisso e abandono de si mesmo. Entre amar o que fazemos e aceitar que o trabalho consuma tudo aquilo que somos.
Este ano aprendi uma coisa que aquela criança de quatro anos não sabia quando começou a frequentar a escola: licença médica não é simplesmente o dia em que um professor deixa de dar aula. Às vezes, é o dia em que ele finalmente consegue parar antes de não conseguir voltar.