Já vi muita coisa bizarra. Acidentes completamente evitáveis acontecerem. Brigas despropositadas por motivos pífios. Discussões acaloradas de pessoas discordando sem se ouvir o suficiente para perceberem que estavam falando exatamente a mesma coisa. Mas, neste último final de semana, acho que o que vou te contar provavelmente entra para o ranking das coisas mais toscas que já presenciei.
Fui convidado por um grande amigo para assistir a um torneio de tênis em um clube da zona sul de Belo Horizonte. Confesso que, a princípio, quase respondi automaticamente que não. Não entendo absolutamente nada de tênis. Mas, já na véspera do torneio, resolvi fazer o oposto. Aceitei o convite e fui estudar o esporte no YouTube, numa espécie de graduação EAD intensiva em “bate-bola para iniciantes”.
Tênis sempre foi um universo muito distante das minhas experiências esportivas de infância, mais ligadas ao futebol com dois chinelos formando o gol, um em cada ponta da rua, e às aulas de educação física da escola pública. Hoje, meus esportes se resumem basicamente à corrida e à musculação, quando não estou foragido da academia.
Fui testar meus conhecimentos recém-adquiridos e, sinceramente, até que consegui acompanhar os bate-rebate de bola, a pontuação meio confusa e a impressionante performance de um adolescente que devia ter uns 14 anos. Sou péssimo calculando idade de adolescente, inclusive já conversamos sobre isso antes.
Meu amigo foi goleado. Ou melhor, tomou um pneu. Expressão estranhíssima do tênis, convenhamos. Eu já estava ensaiando minhas piadas sobre imaginar que no tênis também podia bater na bola com a raquete, preparando meu material humorístico de baixíssima qualidade, quando tudo perdeu a graça.
Achei que fosse alguma brincadeira de mau gosto ou confusão de chave. Mas não. Ele se posicionou tranquilamente no meio da quadra aguardando o início da partida.
E aqui preciso deixar algo muito claro.
O problema central não era exatamente um homem de saia. Era o uso performático da transfobia como espetáculo político e humorístico. A instrumentalização debochada de uma pauta ligada diretamente à sobrevivência de pessoas trans e também ao direito das mulheres. Porque aquilo claramente não era sobre tênis. Nem sobre esporte. Nem sobre igualdade competitiva.
Era sobre provocar. Constranger. Transformar identidades historicamente violentadas em caricatura pública.
Não era uma mulher trans. Era um homem branco, barbado, de cabelos curtos, camisa da seleção brasileira e saia.
Os árbitros não se opuseram. A jogadora, nitidamente desconfortável, acabou tendo que iniciar a partida. Foi aí que o caos começou.
A cada jogada, parte da torcida reagia à fantasia política montada ali no meio da quadra. O problema é que, quando o deboche vira método, o ódio rapidamente encontra espaço para falar alto.
Poderia chamar aquilo de ridículo. De desrespeitoso. Mas talvez seja mais honesto reconhecer que tudo isso é sintoma de uma sociedade profundamente confortável em transformar os direitos das mulheres, sejam cis ou trans, em campo de batalha pública e entretenimento coletivo.
E como um clube inteiro permite que isso aconteça como se fosse apenas mais um domingo esportivo?
O plot twist veio ao final da partida.
Uma criança branca, sorridente, correu até o homem, o abraçou e perguntou:
“Papai, você venceu?”
Mais ao fundo, uma mulher acompanhava tudo com um sorriso satisfeito no rosto.
E foi exatamente nesse momento que a cena realmente me atravessou, pois aquela nunca foi uma partida de tênis. Era uma encenação. Um teatro muito específico sobre poder, masculinidade e humilhação pública.
Saí dali pensando que existe algo profundamente cruel em transformar a dignidade do outro em entretenimento coletivo. Será essa uma das razões de o Brasil continuar sendo um país tão letal para todas as mulheres e outras pessoas LGBTQIAPN+? Homens ensinando crianças, às vezes os próprios filhos, a desrespeitar os outros e ainda chamar isso de diversão, piada ou liberdade de expressão?